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morte anunciada
Dia 27 de agosto estarei voltando a morar no Brasil. O Olho de Hochelaga, depois de ter cumprido razoavelmente sua função, vai deixar de existir. Não imediatamente: ainda continuarei postando algumas reminiscências de Montreal, enquanto outro blogue tratará dos assuntos mais cinematográficos. Nesses três anos e meio o Olho deixou de ser um diário de viagem para se concentrar em um blogue de cinema, embora muitas vezes ele tenha ficado abandonado. Partirei então para outro projeto exclusivo - ou quase - de cinema, enquanto este aqui retoma a cara misturada que tinha no início, até sumir completamente.
Sentirei falta, no entanto, da sonoridade do nome do blogue. Quem sabe não crio um blogue culinário chamado O Alho de Baixo Fogo? Ou um outro sobre as desventuras da vida de nome A Água no Olho Roxo? Ou quem sabe um sobre minhas lembranças nordestinas, batizado de Ôxe, de Olho Largo?
Enquanto medito sobre essas questões de suma importância, vou postando aqui quando der.
Escrito por Milton do Prado às 18h53
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conversas cruzadas
No meio de todo oba-oba/fogo-cruzado a respeito do último Batman, o qual não tenho a menor vontade de ver, andei fazendo algumas analogias sobre quatro filmes que estavam no festival de Munique e que apresentam diferentes maneiras, dois a dois, de resolver alguns problemas a que se propõem tratar. Ou seja, para combater um assunto "da hora", nada melhor do que alguns assuntos "velhos".
Então vejamos: Redacted passava somente agora em Munique, o que é um atraso considerável e o que mostra a dificuldade de De Palma em vender o filme onde quer que seja. Não revi, mas fui conferir Stop-Loss, de Kimberly Peirce, cujo Boys Don't Cry me parece bem simpático e cujos temas são bastante semelhantes aos de Redacted: guerra do Iraque, a possibilidade de expressão vinda dos tais vídeos-diários etc. E é só. De Palma não somente cruza sua indignação política com mais uma reflexão sobre a imagem; ele faz da reflexão sobre a imagem sua indignação política, articulando diversos tipos de material e extrapolando a questão real/falso (as imagens reencenadas seriam mais falsas que as imagens reais da Fox, por exemplo?). Peirce usa o vídeo para criar uma empatia com um público MTV - que de resto parece nem mais existir - e daí criar uma ficçãozinha de denúncia das mais mal encenadas que vi recentemente. De longe o pior filme que vi no festival, mas o que mais impressiona aqui é o fosso que separa os dois filmes.
Havia outra dupla de filmes que também apresentavam semelhanças temáticas e que me interessou bastante. Youth Without Youth, do Coppola, também passava em Munique muito tempo depois de sua estréia nos EUA, também enfrentou problemas de distribuição, também era uma proposta mais low budget de seu diretor, como Redacted foi para De Palma. Só que, como já expressei aqui outra vez, enquanto De Palma apenas redimensiona seu cinema para novas formas (essa é uma questão longa; talvez na verdade ele pratique as mesmas formas com outros temas), Coppola faz desse novo rumo sua nova profissão de fé, quase um golpe publicitário adaptado aos novos tempos. Não digo que não há nada do Coppola antigo no filme - claro que há, mas tudo fica preso por um certo deslumbramento pela pseudo-profundidade esotérica da trama; e nesse sentido o digital para Coppola não serve somente para baixar os custos, mas para colocar uma flor na mão do defunto, no supra-sumo do kitch metido a chic. Daí, no festival, vou conferir Caótica Ana, último longa do ótimo Julio Medem, e me dou conta que ele tem muito em comum com o filme do Coppola. Não somente está presente a mulher que revive suas antigas vidas, indo até sua origem mais primordial, como há claramente um desconforto causado pelo esoterismo explícito. Assim como em Youth Without Youth, a trama é apresentada desajeitadamente, os diálogos são quase ridículos no seu didatismo, os atores não parecem à vontade - nem a câmera parece muitas vezes saber o que fazer, atirando para vários lados e apelando para vários "efeitos". Há no entanto uma diferença fundamental: esse esoterismo não estava tão longe assim da obra de Medem, e seus ecos podem ser sentidos em Esquilo Vermelho, Terra, Amantes do Círculo Polar e Lúcia e o Sexo. Ou seja, há uma verdadeira crença holística por parte do diretor, que muitas vezes soube transformá-la numa poética bastante peculiar. O problema maior no novo filme é que, inspirando-se numa tragédia pessoal (a irmã de Medem, artista plástica, morreu num acidente a caminho de uma vernissagem), parece não haver a distância para administrar tanta viagem - e aqui viagem em qualquer sentido, da Espanha a New York, das exposições de arte às cavernas, do poético ao claramente ridículo. O fosso que separa Youth Without Youth e Caótica Ana não é muito grande; ambos são, cada uma a sua maneira, fracassos na obra dos respectivos diretores. A grande vantagem de Medem é que ele não tem medo do ridículo, além de saber como poucos filmar o corpo de uma mulher.
Redacted (2007), de Brian De Palma  Stop-Loss (2007), de Kimberly Peirce  Youth Without Youth (2007), de Francis Ford Coppola  Caótica Ana (2007), de Julio Medem 
Escrito por Milton do Prado às 13h08
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Salamandra
Essa estréia de Pablo Agüero foi provavelmente o melhor filme que vi no Festival de Munique. Esqueçam Machuca, O Ano em Que Meus Pais... e outros filmes em que o protagonista infantil enfrenta as agruras de viver sob uma ditadura latinoamericana. Salamandra vai fundo na história de uma mãe que foge com o filho para El Bolson, na Patagônia, uma região que abriga todo tipo de fugitivo: políticos, hippies, ladrões (Butch Cassidy foi pra lá) etc. Lá eles vão viver em dois ambientes diferentes, cada vez enfrentando situações mais difíceis. Mas o que marca no filme de Agüero é sua capacidade para trabalhar o onírico de uma situação tão dura, mostrando um ponto de vista infantil poucas vezes visto - no sentido de captar a visão infantil de todo o caos da situação, sem apelar para procedimentos como voice over ou clichês do gênero. Há algo de Lucrecia Martel em alguns enquadramentos, mas o clima que o filme constrói é bastante pessoal e, apesar de toda dureza, ou mesmo por causa dela, bastante poético. A última cena é de uma tristeza profunda. Mesmo com algumas cenas desajeitadas, é um belíssimo filme de estréia.
Como "bônus", o filme ainda conta com uma participação mais que especial:
Escrito por Milton do Prado às 14h47
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Escrito por Milton do Prado às 12h04
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Ferrara em Munique
Uma das coisas mais legais que vi em Munique foi a entrevista coletiva com Abel Ferrara. O filme novo, Chelsea on the Rocks, eu perdi: não tava lá na primeira sessão e na segunda me arranjaram um encontro com realizadores latino-americanos - tipo da coisa que não traz muitos resultados, mas que não dava pra deixar de ir. Enfim, estava em Munique representando o Ainda Orangotangos, filme da Clube Silêncio, então via filmes quando dava. E numa dessas oportunidades truvisquei a entrevista com o cara.
Estavam lá ele, um produtor, uma atriz e um ator do filme. Ferrara me pareceu bastante envelhecido fisicamente, mas tem uma energia fantástica, desvia os assuntos, é engraçado. Alguns dos melhores momentos da entrevista (destaque para o que ele fala sobre montagem, uma obviedade que vários cineastas novos insistem em não ver):
- SID VICIOUS: A coisa que mais lamento nesse último filme foi não ter podido usar algumas imagens de Sid e Nancy no quarto do Chelsea Hotel. Os donos dessa imagem pediram um valor absurdo! Essa gente acha que os anos 70 vão despertar o mesmo interesse para sempre, pensam que o tempo não passa. Daqui a pouco ninguém quer saber dos anos 70 e eles acabaram não mostrando essas imagens quando deveriam. E se vocês as vissem, vocês iriam entender por que eu acho que esse menino não matou a Nancy.
- FILMAGEM EM DIGITAL/MONTAGEM: Claro que filmar em digital facilita muito as coisas, principalmente para documentários. Mas eu acho muito engraçado quando leio a quantidade de bobagens escritas a respeito. Ok, filmei 4 vezes mais material do que se eu estivesse fazendo em película, mas em algum momento alguém vai ter que ver esse material, vai ter que selecionar, e em documentário isso significa um assistente a mais de montagem, ou mais tempo pro montador... Você pode até filmar mais rápido, mas você não monta mais rápido. Você tem que deixar o filme montar, você tem que se dar o direito de errar, voltar atrás, experimentar, e para isso você precisa de tempo. Se não, não estamos falando de montagem.
- SOBRE IMPROVISAÇÃO: muita gente associa improvisação com amadorismo, como o oposto do profissionalismo. Para mim é o contrário. A gente não sai improvisando do nada, a gente tem um roteiro, os atores conversam comigo e a gente começa a ensaiar - e nesses ensaios os atores vão acrescentando, a coisa vai mudando, e é aí que nasce o filme. É isso que mais detesto em Hollywood, os atores nunca conseguem explorar o que podem, porque não conseguem ensaiar para oferecer algo realmente digno do trabalho deles. Então o que a gente vê em 99% dos filmes hollywoodianos é apenas o primeiro ou segundo ensaio daquilo que eu costumo trabalhar.
- REMAKE DE BAD LIEUTENANT: Ok, de novo esse papo. Eu realmente tô puto com essa história, por um motivo simples: nós fizemos esse filme com suor e sangue, daí vem esse garoto chamado Nicolas Cage e diz que vai refilmar. Cá pra nós, vocês conhecem idéia mais idiota? E esse diretor, Herzog, quem é ese cara? De onde ele é aqui na Alemanha? (nesse momento o tradutor informa que Herzog nasceu em Munique) Ele nasceu aqui? Oh fuck (dá uma gargalhada). Vocês me desculpem, na real acho que ele está entrando de idiota na história, e que o filho da puta é mesmo Nicolas Cage, que não tem um quinto do talento nem um décimo da personalidade do Harvey Keitel. Perguntem a vários atores, perguntem a Willian Dafoe o que ele acha do Cage... eu ia trabalhar uma vez com ele e todos me parabenizam por não ter dado certo. Ele nunca vai ficar nem ficar na sombra de Keitel, ou de Klaus Kinski, por exemplo.
- PRÓXIMOS PROJETOS: Quero fazer um prequel do King of New York, mas já mudei o roteiro várias vezes. É um filme mais sobre Nova Iorque dos anos 70 do que qualquer outra coisa. Mas antes eu provavelmente vá fazer um western. Ou um anti-western, sei lá. (obs: no imdb o prequel de King of New York, Pericle il Nero, consta como seu próximo projeto, em pré-produção).
Escrito por Milton do Prado às 17h39
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Encontradas novas cenas de Metrópolis
Enquanto não coloco aqui um relato breve do Festival de Munique, vai uma notícia achada na folha online. Vale lembrar que Metrópolis é daqueles filmes com inúmeras versões, e que a tal da "versão completa", quase um mito, está mais próxima de ser conferida.
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Quase todas as cenas que faltavam do filme "Metropolis", o mais conhecido do cineasta alemão-austríaco Fritz Lang, foram encontradas na Argentina, informou a porta-voz da fundação alemã Friedrich Wilhelm Murnau, que possui os direitos da obra.
A versão original do longa-metragem mudo de ficção-científica foi exibida em janeiro de 1927 em Berlim e havia desaparecido.
"Quase todas as cenas que faltavam até agora foram encontradas, entre elas duas muito importantes", disse Anke Wilkening, restauradora da fundação responsável pela conservação do patrimônio cinematográfico alemão, com sede em Wiesbaden.
As cenas, que representam "aproximadamente 25 minutos" do filme, estão na cópia de 16 mm encontrada na casa de um particular por colaboradores do museu do cinema de Buenos Aires.
"Graças a esta descoberta sensacional, e apesar da qualidade ruim das imagens, será possível agora completar esta obra-prima realizada em preto-e-branco", afirma a fundação em um comunicado.
Grande clássico do cinema, "Metropolis" foi cortado por representantes do estúdio americano Paramount, que também simplificaram a história.
Escrito por Milton do Prado às 11h33
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