O Olho de Hochelaga


Ranking 2000


A Liga dos Blogues Cinematográficos publicou o resultado da votação dos melhores filmes dos anos 2000, até agora. Muito interessante o resultado.


Escrito por Milton do Prado às 12h01
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Pra não dizer que não falei do verão


Queria fazer esse post depois de ver Hulk e o filme do Shyamalão, mas como as coisas andam difíceis por aqui, coloco algumas observações esparsas sobre dois filmes de verão vistos há duas semanas.

Iron Man é para mim um dos melhores blockbusters dos últimos anos. Faz tempo que não saio do cinema com a impressão de ver um filme que trabalha com a idéia de "eficiência" em divertir - algo que a princípio seria inerente a esse tipo de filme, mas que acho que Hollywood andava esquecendo um pouco. Extremamente bem-dirigido, com uma decupagem que valoriza a ação sem necessariamente ser óbvia. Exemplo: quando Stark foge da caverna no Afeganistão, com a primeira armadura, e é atacado por soldados inimigos; quando ele revida com o maçarico de longo alcance, a câmera vai para trás de seu ombro e faz um movimento lateral "na mão", imprimindo um realismo ao mesmo tempo que injeta adrenalina na cena. Outro, que pode parecer óbvio num primeiro momento: mostrar o rosto do herói "dentro" da armadura é um trunfo fantástico para contrabalançar o CGI (de resto, muito bem usado).

Toda a preparação de Stark para construir a armadura, que pode ter irritado alguns fãs que já estão careca de conhecer a história, é bastante favorável à construção narrativa. E o trunfo do elenco não pode ser negligenciado: Jeff Bridges é O mad scientist, Gwyneth Paltrow nasceu para o papel e Robert Downey Jr., um grande ator, sabe a exata medida do humor, da calhordice e, quando precisa, da seriedade.

História simples da origem de um herói, não levada a sério no tom, mas na execução, o filme ganha muitos pontos por tornar crível um enredo completamente absurdo. Tem mais: independente do grau de fidelidade aos quadrinhos. Assim, temos talvez a excelência do filme infanto-juvenil: a exposição de um universo de aventuras com suas regras particulares.

Eis que venho agora a Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull. Desta vez Spielberg parece escancarar o lado infantil do herói infanto-juvenil, apelando para todo tipo de excessos lógicos: Indiana escapa de uma bomba atômica, cai (três vezes!!!) de uma catarata em cima de um barco, sobrevive a uma perseguição de carros interminável numa floresta. O que incomoda aqui não é a inverossimilhança, mas a passagem do herói para um outro patamar de verossimilhança. Porque nos três primeiros filmes, se as escapadas sempre foram fantásticas, havia sempre uma noção dos limites físicos de Indiana (ele não pode voar, ele se machuca, ele tem medo de cobras) e do ambiente que estava em volta (as corridas de carro eram num deserto, os espaços eram fantásticos, mas com limites de ação mais claros). Aqui tudo mudo, tudo se estica (as corridas na Amazônia, o filho dele dando uma de tarzan), fazendo com que o fantástico sobreponha-se sem vergonha a uma referência mínima ao mundo físico. Daí para colocar bichinhos (esquilos do deserto, macacos) interagindo e inflar o filme de piadas é um pulo.

Nesse sentido, o filme se perde sempre que tenta ou precisa ser complexo. A relação com o filho nunca acontece, a volta do personagem de Karen Allen que é muito mal aproveitada, a trama que é explicada em detalhes inúteis. E levanta vôo quando simplifica. Assim, a vilã feita por Cate Blanchet é um primor gráfico (no sentido que uma caricatura o é, quando bem-feita). Uma cena em particular: quando Indiana está preso pelos russos numa cadeira, na Amazônia, e Irina Spalko aproxima-se para tentar arrancar uma confissão. Um plano é filmado de fora da cabana, deixando-nos entrever somente a figura em sombra dele e dela. Um chapéu e um corte chanel são suficientes para estabelecer o confronto, numa demonstração que Spielberg estava bem consciente dessa simplificação que o filme exigia.

E quando isso acontece, o filme lança vôo e a gente fica assistindo na poltrona do cinema, sem ao mesmo se perguntar como vamos sair do Eldorado e voltar pra casa.

Iron Man
Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull


Escrito por Milton do Prado às 12h56
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Ranking anos 2000 - parcial


Feita para uma sondagem da Liga, meio às pressas, com muita coisa esquecida.

01- Cidade dos Sonhos (2001), de David Lynch

02- Maria (2005), de Abel Ferrara

03- Marcas da Violência (2005), de David Cronenberg

04- Mal dos Trópicos (2004), de Apichatpong Weerasethakul

05- O Sabor da Melancia (2005), de Tsai Ming-Liang

06- A Menina Santa (2004), de Lucrecia Martel

07- Lady Chatterley (2006), de Pascale Ferran

08- My Winnipeg (2007), de Guy Maddin

09- L’histoire de Marie et Julien (2003), de Jacques Rivette

10- Paranoid Park (2007), de Gus Van Sant

11- A Última Noite (2002), de Spike Lee

12- Sobre Meninos e Lobos (2003), de Clint Eastwood

13- Edifício Master (2002), de Eduardo Coutinho

14- Os Amantes Constantes (2005), de Philippe Garrel

15- Lúcia e o Sexo (2001), de Júlio Medem

16- The Saddest Music in the World (2003), de Guy Maddin

17- Sweeney Todd (2007), de Tim Burton

18- O Mundo (2004), de Jia Zhang-ke

19- Kill Bill vol. 1 (2003), de Quentin Tarantino

20- Medos Privados de Lugares Públicos (2006), de Alain Resnais

Ficaram no páreo:

- A Vila
- Os Incríveis
- Elefante
- A Tale of Two Sisters
- The World
- Still Life
- Redacted
- Ratatouille
- La Ciénaga
- Demonlover
- Garotas do ABC
- 25 Watts
- La Perdición de Los Hombres
- Death Proof
- Cowards Bend the Knee
- A Dama de Honra
- As Coisas Simples da Vida
- Um filme Falado

e mais uns tantos.



Escrito por Milton do Prado às 17h40
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Ferrara, Farmer, Brenez


Analyse California

Análise do clipe Califórnia, de Mylène Farmer, dirigido por Abel Ferrara, feita por Nicole Brenez. Tentarei traduzir em breve.

Aqui embaixo, o clipe sem comentários. Um belo curta-metragem, na verdade.




Escrito por Milton do Prado às 13h09
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revisão Jacques Rivette - parte 2


Céline et Julie vont en bateau (1974)
Rivette dá prosseguimento às experiências com improvisação - tanto que o roteiro do filme é assinado por ele e Eduardo de Gregorio, mas também por Juliet Berto, Dominique Labourier, Bulle Ogier e Marie-France Pisier, todas atrizes no filme - dessa vez optando por um tom oposto ao de Out 1. Não que não haja dor e desespero no filme, mas a tônica dominante que é justamente a da brincadeira e do prazer - prazer do cinema, prazer da encenação, prazer do jogo. Os 20 minutos iniciais dão a pista: não procure a trama, pois ela vai te achar. Só nos resta embarcar no barco das duas recém-amigas e acompanhá-las na história de amor e morte a que elas assistem - e da qual depois elas participam. Alice no País das Maravilhas, Casa Mal-Assombrada, Les Vampires - nos anos 70, esses universos faziam mais sentido para Rivette do que a situação político-social da Paris pós-68.

Noroît (1976)
Era para ser um filme de western, parte de uma tetralogia chamada Les filles de feu, que virou mais tarde Scènes de la vie parallèle. Mas a história se transformou num capa-espada experimental, onde o que mais importa é o clima de traição perene que existe no ar. Um dos filmes mais experimentais de Rivette (repetições, telas monocromáticas, música in loco), e um dos quais o peso da duração se faz sentir (embora tenha "somente" 146 minutos). Mas não deixa de ser uma beleza ver um capa-espada dominado por mulheres, com destaque para Bernadette Laffont como a rainha-pirata e Geraldine Chaplin como a vingadora. As batalhas no final são puro deleite.

Duelle (une quarantaine) (1976)
Outro capítulo das Scènes de la vie parallèle. Dessa vez é a história de duas deusas (do sol e da lua) que voltam a terra para duelarem. A forma com que Rivette mistura o mistério policial e o fantástico é exemplar na sua simplicidade, assim como todos os "efeitos especiais" (que estão mais para reinvenção do repertório do cinema fantástico antigo do que qualquer outra coisa). No primeiro encontro entre as duas deusas, um dos travellings mais bonitos de toda a carreira do cineasta. Embora ainda faça parte de sua fase mais experimental, os movimentos de câmera e o trabalho com os atores (os travellings praticamente dançam com eles) já anunciam o que ele iria sedimentar mais adiante.

Merry-Go-Round (1981)
Graças a uma crise de nervos, Rivette interrompe as filmagens de L'Histoire de Marie et Julien depois de alguns dias, abandonando definitivamente o projeto de Scènes de la vie parallèle. Merry-Go-Round nasce então com o estigma da crise. Interrupção nas filmagens (entre 77 e 78), atraso no lançamento (em 81 estréia na Alemanha, mas na França somente em 83), elenco internacional (Maria Schneider e Joe Dalessandro), tudo conspira para que esse seja um dos filmes mais bizarros do diretor, que o considera um de seus piores. Mas há um prazer estranho em seguir essa história de mundos paralelos e intriga policial.

Le Pont du nord (1982)
Um passeio por Paris, uma exploração de seus espaços e de como as duas atrizes principais, mãe e filha na vida real, se movimentam neles. A política mundial reaparece como fonte de paranóia, como mola propulsora para a ameaça, como passado secreto das personagens. O passeio muitas vezes vira dispersão, mas esse é o risco que o filme assume. Ao menos uma cena maravilhosa: ao som de Libertango, Pascale Ogier roda em sua mobilete, intrigada pelos ameaçadores e enigmáticos leões de pedra parisienses - um momento raro de montagem com música na carreira de Rivette. Cine-flâneur autêntico.

Escrito por Milton do Prado às 14h14
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Feliz aniversário, Jacques


Enquanto preparava a segunda parte da minha revisão Jacques Rivette, descubro no imdb que já existe um novo projeto seu anunciado:

http://www.imdb.com/title/tt1239285/

Por enquanto, só sabemos que será com Sergio Castellitto (Va Savoir) e Jane Birkin (L'Amour par terre, La Belle Noiseuse).

Aos 80 anos (completados em março), o velhinho não deixa a peteca cair!


Escrito por Milton do Prado às 15h08
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The Heart of the World


Outro curta feito para o 25˚ Festival de Toronto.




Escrito por Milton do Prado às 12h53
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Camera


Uma das duas obras-primas de curta metragem que foram produzidas para o Festival Internacional de Toronto em 2000:



Para quem não consegue ver aí em cima, CLIQUE AQUI.


Escrito por Milton do Prado às 13h18
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revisão Jacques Rivette - parte 1


Com a visão de Ne Touchez pas la hache (2007, inédito em Montreal), finalmente em um dvix decente, acaba meu primeiro périplo pela obra de Jacques Rivette. As lacunas são de obras ou versões dificílimas de encontrar, como vou indicando durante o texto - se alguém tiver alguma dica/sugestão, aceito de bom grado. A revisão vai em capítulos. Vai uma cotação (0 a 5 estrelas) e pequeno comentário sobre cada filme:

LONGAS-METRAGENS:

Paris nous appartient (1960)
Onde tudo começou: o teatro, as ruas de Paris, a conspiração. É evidentemente um ensaio que seria melhor desenvolvido em filmes posteriores, mas creio que Rivette é excessivamente rigoroso quando fala desse filme. As imagens em P/B do trem (que viriam depois em cores em La bande des quatre e Secret Défence) e dos telhados de Paris são inesquecíveis, assim como a participação do próprio Rivette como um semi-paranóico numa festa. Visto pela primeira vez em dvix em 2007.

La Religieuse (1966)
Outra aproximação com o teatro, dessa vez de dentro para fora, e depois para dentro de novo. O filme é uma adaptação de uma peça dirigida pelo próprio Rivette alguns anos antes e reflete (no sentido de fazer uma reflexão sobre) essa influência: mais do que no filme anterior, o jogo de atores em relação à câmera se inspira no teatro para contar a história da garota que foi "emprisionada" no convento pela própria família. O filme passa longe do denuncismo fácil e tem Anna Karina iluminada e um assustador trabalho com o som. Visto em 35mm na Cinemathèque Quebecoise em 2005.

L'Amour fou (1969)
Fãs mais empedermidos de Rivette irão me recriminar por considerar visto um filme na versão reduzida (130 minutos ao invés dos 252), e com razão: ao contrário de outros casos, a versão reduzida desse filme foi feita à revelia do diretor. O resultado é um filme que tropeça em sua primeira meia hora, é confuso em algumas passagens, mas que mantém a força das imagens e da loucura do casal (ele diretor de teatro, ela atriz) que se fecha no apartamento até enlouquecer. Um filme único, um encontre de um diretor e atores em estado de graça. No final, só fica a sensação: se a versão ruim é essa, imagina a boa!!! Visto em 16mm na Concordia University em 2007.

Out 1 - Noli me tangere (1971)
Rivette aproveita uma encomenda para TV e leva ao paroxismo as experimentações de L'Amour fou. Foi tão longe que o filme nunca foi exibido na TV que o encomendou, e passou com quase 13 horas de duração, dividido em 8 partes, numa sessão histórica em Havre. Dois anos depois, Rivette faz uma versão de 4 horas e pouco, com o nome de Out 1 - Spectre, que os que viram dizem tratar realmente de um outro filme. No final dos anos 80, Noli me tangere é recuperado por alguns festivais e TVs, com alguns minutos e uma cena a menos, e o século 21 permitiu algum maluco de partilhar uma exibição da RAI nos emules da vida. O filme é uma experiência radical, possivelmente o mais difícil de se colocar uma cotação aqui. As três primeiras partes são as mais radicais: praticamente assistimos ao ensaio de dois grupos de teatro, e ao esboço de dois personagens fora desses grupos. É a partir do quarto episódio que uma tênue trama se instala, envolvendo um grupo que se inspira nos 13 de Balzac para conspirar contra... contra o que, mesmo? Onde está Igor? Quem está traindo quem? As trupes são elas também um grupo de conspiração? E o filme, pode ser ele também uma forma de conspiração?

Escrito por Milton do Prado às 12h41
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