O Olho de Hochelaga


Crônicas sergipanas


10 dias em Aracaju, depois de 4 anos. Bom motivo para reviver o blogue com observações esparsas:

- fiquei impressionado com a programação de filmes no avião da Air Canada. Cinco canais diferentes, com várias opções em cada um. Na opção Hollywood, dava para ver No Country for Old Man ou Michal Clayton; na French Film, algumas comédias bobas, mas também a Le voyage du balon rouge; na Classics, Gold Rush e... Contos da Lua Vaga !!!!! Só para ficar em alguns exemplos.

Tentei encarar o Le voyage du balon rouge, mas depois de 20 minutos desisti. Nada contra o filme, pelo contrário. Simplesmente não é o tipo de filme para se ver numa tela minúscula sem contraste algum e aeromoças tentando servir o lanche. Fiquei com The Heartbreak Kid dos irmãos Farrely e gostei mas do que pensei que iria gostar. Sim, eles estãos e repetindo, mas algumas piadas são de rachar o bico, principalmente as que envolvem a loira (a atriz morena parece que nunca entra mesmo no filme). Outro filme que me impressionou foi Michael Clayton, classudo e sério na medida certa - achei inclusive que tem semelhanças formais com La question humaine, mas precisava aprofundar mais isso. Por fim, Death at Funeral não é a melhor comédia do mundo, mas é um filme com muita noção de seus limites (inclusive do espaço) e de suas forças (elenco, principalmente).

- Aracaju mudou bastante e acho que na maior parte para melhor. A cidade cresceu, mas controladamente. Está mais arborizada e cuidada, e me parece que no centro e na periferia também. A ponte Aracaju/Barra dos Coqueiros, grande golpe político de desespero do antigo governador, é muito bonita e uma mão-na-roda para ir para à ilha. A cidade está limpa e mais organizada. Também me deu a impressão que tem mais coisas acontecendo: novas bandas, algum teatro sendo feito, e um novo movimento de cinema (vamos deixar essa de "audiovisual" para outra hora, ok?) querendo surgir. A implantação do tal Núcleo de Produção Orlando Vieira é uma das coisas mais legais que já vi por lá, disponibilizando equipamento e qualificando o pessoal para produzir mais. O resultado é que tem gente fazendo, coisa que (quase) não havia no início dos anos 90. Deu tempo até para eu bater um papo com o pessoal sobre montagem, e para minha surpresa o nível das perguntas e do interesse foi muito bom.

Por outro lado, alguns problemas pioraram. O trânsito tá uma merda, tanto porque todo mundo pega o carro até para comprar pão na esquina, quanto porque a falta de respeito impera. É um tal de cortar pela direita, esquerda, por cima, por baixo... Só não tá pior por causa da fiscalização eletrônica (sou dos defensores disso em qualquer lugar do Brasil). Outro dado negativo: as praias que estão numa sujeira infernal. E aí não dá pra criticar a Petrobrás ou multinacionais poluentes: a população mesmo é que suja. Teve um dia que encontrei todos os tipos de plástico possíveis na água (saco de lixo, copinho, modess) e um verdadeiro tapete feito de tampa de garrafa. Falta a prefeitura limpar, distribuir lixeiras, educar e, medida última mas imprescindível, fiscalizar e multar. Porque se piorar um pouco fica impraticável.

- Revival culinário: caranguejo (sobre o qual meu filho perguntou "papai, por que tem tanto pêlo?"), amendoim cozido (o melhor do Brasil, com efeitos afrodisíacos coprovados!), peixada, caldinhos de sururu e de feijão (devidamente apimentados), suco de mangaba (vale por uma refeição!). Só ficou faltando o acarajé, mas como a Suzi tava mal de digestão nos últimos dias, preferi me poupar também.

- Foram 9 dias em Aracaju + 2 e meio em trânsito. Dos 9 em Aracaju, cerveja em 8. Dos 8, só bebi pouco em 2.

- Depois do segundo inverno com mais neve da história (medida) de Montreal, nada como encarar o sol e o calor para recuperar as baterias. Mas confesso que no final o calor já me irritava um pouco.

- No Canal Brasil, vi A Culpa, de Domingos de Oliveira, filme do qual nunca tinha ouvido falar. Curiosíssimo, mas que nunca levanta vôo. Agora, um filme com Paulo José, Dina Sfat e Nelson Xavier improvisando não pode ser desprovido de charme e interesse.

- Vi no cinema com o Guto o tal de Crônicas de Spiderwick. 20 minutos para me acostumar com a dublagem (que era ruim, e olha que sempre que posso defendo a dublagem brasileira). O som do cinema também tava uma merda (alguém tem que reclamar com o Cinemark, atualmente a única rede de salas da cidade). Mas o filme é bem interessante, com um ritmo muito bom (sobretudo depois da primeira meia hora, meio atropelada), ambientação interessantíssima (é uma mistura de fantasias à Narnia com filme de casa mal-assombrada) e roteiro com participação do John Sayles. Ok, a moral final enche o saco, mas me lembrou o bom Spielberg (de ET, por exemplo) na história da família com pai ausente. Ah, a participação de Nick Nolte é nota 10.

- Um certo clima bizarro imperava no ar: um tio doente (grave), minha mãe recuperando-se de cirurgia (nada grave, mas sempre um incômodo), falecimento do sogro de minha irmã (que me levou a uma inesperada missa de sétimo dia) e, como se não bastasse, minha vó com dengue. Mas era uma versão mais suave da doença, o que permitiu comemorar os 90 anos dessa mulher maravilhosa.

- Encontrei velhos amigos e tive ótimos momentos, embora o tempo não tenha permitido matar toda a saudade.

Agora, de volta à realidade.

Escrito por Milton do Prado às 23h28
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