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Em fevereiro

O Alfred é um prêmio dado pela Liga dos Blogues Cinematográficos aos melhores filmes exibidos no Brasil no ano passado. Já em sua quarta edição, o prêmio acontece em duas etapas - na primeira, os cerca de 60 sócios ativos da Liga votam nos 5 melhores de cada categorias (esse ano são 20). Na segunda, cada sócio vota no melhor entre os cinco finalistas de cada uma. Para curiosos de plantão, os detalhes deste e dos Alfreds anteriores estão no site da Liga. Em breve eu anuncio aqui a data e hora da divulgação dos resultados, que pode ser acompanhada (e comentada) online. Vale destacar o belo trabalho do gerente e fundador da Liga, Chico Fireman, e do designer do logo do prêmio, Teco Apple.
Escrito por Milton do Prado às 13h55
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dead men
Experiência interessante essa de rever Dead Man uma semana depois de rever The Searchers. Ora, evidentemente Ford já pensava questões de representação cinematográfica numa profundidade nunca pensada antes (o velho oeste individual e francamente racista dando lugar ao coletivo, a cavalaria ironizada etc), ao mesmo tempo que se permitia vôos narrativos dos mais livres e interessantes - vide as várias seqüências em que a história passa a ser contada pela carta de Martin. Ok, Jarmush não é nenhum Ford, mas é impressionante como Dead Man recoloca na ordem do dia quase tudo que fundou o mito do western: a fronteira (o herói que de tanto fugir para o western morre no mar), o índio (que foi criado na Inglaterra e é quem vai dar rumo para o civilizado perdido), a própria representação (Robert Mitchum de charuto e rifle na frente de um quadro de Robert Mitchum de charuto em rifle!). Ou seja, o filme é muito mais que uma obra cool com uma grande trilha sonora (ah, fotografada por um dos maiores do mundo, também).
Escrito por Milton do Prado às 22h37
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Tempo de espíritos e faunos
É admirável como El Labirinto del Fauno explora o conhecido tema da fantasia infantil invadindo o mundo real, já explorado no cinema várias vezes, do desespero exagerado de The Reflecting Skin ou da ironia desesperada de The Butcher Boy, passando pelas evidentes referências a Alice no País das Maravilhas, O Mágico de Oz etc. O fato do filme de Guillermo Del Toro explorar uma realidade espanhola derivada da Guerra Civil e contrapô-la à fuga fantasiosa de uma garota faz lembrar El Espíritu de la Colmena (1973), de Victor Erice. Graças à alta procura na locadora do último e ao atraso do circuito exibidor montrealense com relação ao primeiro, vi os dois filmes na mesma semana. A comparação, além de não ser favorável ao filme recente, é injusta quando pensamos as especificidades de El Labirinto Del Fauno.
El Espíritu de la Colmena é um clássico de tal envergadura no cinema espanhol que se tornou ele mesmo um espírito difícil de se desvencilhar quando se fala em cinema fantástico vindo daquelas bandas. É interessante notar como o filme, refletindo sobre uma das imagens mais cristalizadas do início do cinema falado - o Frankenstein de James Whale - acabou ele mesmo se transformando numa das imagens fundadoras de um cinema que surgia nos estertores do governo de Francisco Franco. Não que o filme de Erice tenha sido referência para qualquer obra surgida depois, assim como não foi o filme de Whale mundialmente falando, mas o fato é que dificilmente um cineasta espanhol que fosse falar dos horrores da guerra civil ou de fantasia infantil conseguiria escapar de suas poderosas imagens. E o poder de suas imagens vêm em grande parte pela sugestão: vários episódios do filme não são vistos, algumas relações entre personagens não são explícitas, nada é muito explicado, mas está tudo lá. Em seu filme de estréia, Erice já sabia que a sugestão só aumenta o poder e o impacto do que é visto, incluindo aí a única cena literalmente fantástica do filme, quando a maravilhosa Anna Torrent encontra seu monstro. (continua embaixo)

Escrito por Milton do Prado às 01h54
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Tempo de espíritos e faunos (continuação)
Já El Labirinto Del Fauno é o oposto disso. Del Toro não quer sugerir muito, ele quer mostrar. Visualmente seu filme deve muito mais aos trabalhos de Tim Burton e Terry Gillian que ao de Erice. O(s) monstro(s) da menina é (são) visto(s) desde o início e boa parte da magia do filme é em ser convincente no tratamento desse mundo monstruoso. Por isso o mundo real tem que ser evidentemente mais monstruoso que o da fantasia. A guerra civil - e sua conseqüência, a ditadura - não servem para Del Toro como elemento para uma potencial reflexão humana ou social, mas apenas como manancial para vilões caricaturizados na medida para o tipo de fábula que ele quer contar. Assim como em El Espinazo del Diabo tínhamos um vilão que era a pura encarnação do mal, no novo filme quem cumpre esse papel, de forma ainda mais explicitada, é o personagem do Capitão Vidal. Se o cinema tem, do filme B ao western, passando pelo filme de guerra, uma galeria imensa de vilões impiedosos, a aproximação com generais fascistas/nazistas torna o reconhecimento do mal simbolicamente muito mais imediato e forte (lembremos também dos militares em Hellboy). Afinal, o que pensamos quando a palavra Hitler vem a mente? Coisa boa é o que não é.
A aposta na superficialidade da caracterização dos vilões é então cara a Del Toro, via aproximação com o fascismo. Nas cenas em que o Capitão se barbeia fica às vezes um gostinho de quero mais, como de resto em vários pontos do filme. Se essas cenas são ótimas do ponto de vista narrativo, ajudando a construir a obsessão do personagem pela ordem, é de se perguntar o quão longe Del Toro poderia ir se ele enriquecesse mais alguns personagens e situações. Enquanto esse dia não vem, temos um filme que não tem nenhuma preocupação com a contemplação e com a criação de imagens através do tempo (seja pela contemplação ou pelo uso da elipse). É aí que a comparação com El Espíritu de la Colmena torna-se realmente infrutífera. O filme de Erice alcança o sublime pelo poder de sugestão e trabalho com o tempo lento. O filme de Del Toro não almeja isso, porque o tempo não pode parar. O tempo aliás, tem um papel fundamental no filme e em seu cinema. Lembremos então que seu primeiro longa-metragem se chamava Cronos e reinventava a idéia de vampiro centrando-se no poder do tempo e na obsessão pela imortalidade. Também em El Labirinto del Fauno, o mal (o Capitão), tendo em mãos um relógio herdado do pai (que ao morrer queria quebrá-lo para mostrar o filho a hora exata em que morreu) tem como sua maior preocupação a continuação de sua linhagem através de um filho homem - o que não deixa de ser, a seu ver, uma maneira de continuar vivendo. Mas não é somente o Capitão que luta contra o tempo. Ofélia, a heroína, também tem que cumprir suas tarefas antes da próxima noite de lua cheia para poder retornar a seu reino. Uma das tarefas, aliás, têm como limite o tempo de um relógio de areia - não por acaso, essa cena onde o limite do tempo aparece mais explicitado é também a mais assustadora do filme, mostrando toda capacidade de Del Toro em trabalhar fluência interna e suspense. Também a mãe de Ofélia, grávida e mal de saúde, é um relógio que representa para Ofélia o fim da pouca felicidade que ela tem e o início do horror absoluto.
A única saída é o mergulho na fantasia. Ou melhor, a irrupção da fantasia. Não somente as fadas e o fauno que aparecem para Ofélia quando ela menos espera, mas também o exército de rebeldes que aparece para Mercedes (Maribel Verdú) quando tudo parecia perdido, numa das melhores cenas do filme: cercada por cavaleiros fascistas armados, Mercedes ameaça se matar, quando de repente irrompem da floresta os rebeldes para salvá-la. Mercedes, que é ao mesmo tempo a mãe possível de Ofélia no futuro e a Ofélia que cresceu e deixou de acreditar em fantasias, é salva por um milagre, brilhantemente encenado e decupado.
O personagem de Mercedes é um dos mais importantes do filme, não somente por ser uma das poucas pontes entre a fantasia de Ofélia e a realidade (já que sua mãe começa o filme com o relógio da morte já em andamento), mas por representar uma das oposições possíveis dentro da realidade de horror: a espiã que, dentro do território inimigo, sabota-o para ajudar os rebeldes. Isso só é possível porque ela é mulher e é interessante notar o importante papel das mulheres do filme: dar origem a uma nova vida, seja literalmente (a mãe), seja através da pura fantasia (Ofélia), seja nutrindo a esperança da rebeldia (Mercedes). As mulheres são o exato oposto do mondo macho representado em última instância pelo Capitão e sede de controle e ordem (o verdadeiro sonho fascista). De certa forma, El Labirinto del Fauno é um filme feminino (não que as mulheres não desçam o cacete quando necessário, como quando Mercedes protagoniza uma das cenas mais violentas do filme cortando a cara do Capitão - que vai friamente tentar consertá-la, tirando o sorriso forçado pela faca e retomando sua seriedade).
A fantasia de Ofélia, então, é ao mesmo tempo seu escape do horror e a fuga do tempo que está acabando. Coerentemente, o ritmo vai ser uma das maiores preocupações da realização de Del Toro. A câmera que está sempre em movimento, não se detendo muito sobre o que mostra, e a montagem do filme faz com que seja praticamente impossível não embarcar em seu universo, da mesma maneira que Ofélia não consegue escapar de embarcar no universo que ela cria. Se o final do filme chega a ser chocante pela não concessão do diretor (a não ser que se pense no parêntese evidentemente kitsch), boa parte é por causa dessa capacidade de envolvimento do filme em seu trabalho com vários medos - medo infantil, do autoritarismo, do tempo, do escuro, de sons etc. No entanto, ao contrário de El Espíritu de la Colmena, o filme não supera a fábula. Erice não usa fantasia como simples válvula de escape de um mundo duro, mas como realidade de um mundo interno marcado pela tristeza. Aparentemente esse seria o caso de El Labirinto del Fauno com seu golpe final, mas ele nunca atinge o nível de poesia do filme de Erice, seja pela superficialidade, seja pelo seu deslumbre assumido pelo fantástico, o que não é um problema a priori, mas estabelece seus limites, para o bem e para o mal. O filme parece conter, ao menos, uma certa auto-crítica no fim, quando a fantasia também se revela como repressora. Significativo também é o fato que o filme termina com um sinal de otimismo, com a relativa "vitória" dos rebeldes, que não deixa de ser fantasiosa e coerente - se, na vida real, a ditadura de Franco iria levar algumas décadas para acabar, nada como acelerar um pouco o relógio para o pequeno grupo de rebeldes do filme, mesmo que o sangue de inocentes precise ser derramado em sacrifício.

El Espiritu de la Colmena (1973), de Victor Erice  El Labirinto del Fauno (2006), de Gillermo Del Toro 
Escrito por Milton do Prado às 22h33
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E agora, Al Gore?
Os termômetros marcaram hoje de manhã cedo -24˚com sensação térmica de -32°C. Ainda não foi o record de dezembro de 2004, quando vi -27°C com sensação de -39°C, mas dá para dizer que o inverno chegou. Fica difícil de acreditar em Global Warming.
Escrito por Milton do Prado às 16h09
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Meus melhores de 2006
Com certo atraso, minha lista de melhores filmes do ano, visto em qualquer suporte, valendo somente filmes dos últimos três anos que não tenham sido distribuídos em anos anteriores.
 1- Mary (2005), de Abel Ferrara A vida é cheia de som e fúria.
 2- Sud pralad (2004), de Apichatpong Weerasethakul Febre de juventude.
 3- Les Amants Réguliers (2005), de Philippe Garrel Febre de juventude 2.
4- Inside Man (2006), de Spike Lee Subversão contrabandeada!
5- Solntse (2005), de Aleksandr Sokurov Delírios de um anormal.
6- Arrivederci Amore, Ciao (2006), de Michele Soavi Volta triunfal de Soavi, mexendo e remexendo gêneros
7- Three Burials of Melquiades Estrada (2005), de Tommy Lee Jones Os limites da tristeza.
8- Match Point (2005), de Woody Allen Ambição, Allen e Johansson.
9- Shortbus (2006), de John Cameron Mitchell Sem medo de ser feliz.
10- Le Petit Lieutenant (2005), de Xavier Beauvois Barra pesada.
11- OSS 117: Le Caire nid d'espions (2006), de Michel Hazanavicius 12- Los Muertos (2004), de Lisandro Alonso 13- Brokeback Mountain (2005), de Ang Lee 14- Munich (2005), de Steven Spielberg 15- L'enfant (2005), de Jean-Pierre Dardenne & Luc Dardenne 16- The Black Dahlia (2006), de Brian de Palma 17- 5x2 (2004), de François Ozon 18- Caché (2005), de Michael Haneke 19- Les Anges Exterminateurs (2006), de Jean-Claude Brisseau 20- Keane (2004), de Lodge Kerrigan
Escrito por Milton do Prado às 22h00
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Feliz 2007 a todos!!!
Peço desculpas a todos pela ausência, mas as férias do blogue se impuseram para além das minhas próprias forças. Depois de meses de muito trabalho, recebi a visita de uma dupla (ou melhor, de um trio - vide a barriga da Gabi) queridona, de quem morria de saudades, o que resultou em horas e horas de caminhadas pela cidade, vários pichets de céva, sanduíches de carne defumada do Schwartz, algumas putines, uma viagem a Quebec, pouca neve e algum frio, ouros pitches de céva, um natal pleno de presentes e costelas de porco, uma festa de ano-novo com várias línguas, cores e ritmos, um show esperadíssimo e cancelado por motivos óbvios, mais pichets de céva e, por fim, uma gripe violenta seguida de faringite e amigdalite.
Cá estou eu de novo, repleto de energia para esse novo ano, onde pretendo aos poucos implementar algumas mudanças no blogue (não prometo nada, mas vou tentar).

Para todos, um ano com mais sorte!!!!
Muito em breve, minha lista de melhores de 2006!
Escrito por Milton do Prado às 00h26
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