Shortbus, do John Cameron Mitchel, se mostrou uma ótima surpresa. O filme mistura melancolia e leveza para comentar problemas de afetividade, com muito humor e uma dose razoável de invenção (a maneira como o filme usa os cenários é sempre ótima). Temos então uma leveza à sitcom, com piadas que nunca estariam numa sitcom (como quando a personagem principal usa um vibrador interno com controle remoto, mas o marido o perde na boate; ou ainda, na improvável ménage gay que termina numa impagável interpretação de The Star Spangled Banner), e com uma energia que nunca esteve em nenhuma sitcom. Pode-se falar de superficialidade e de alguma facilidade na composição dos personagens, mas o filme é uma das mais honestas, belas e completas defesas do sexo que já vi no cinema.
Só não foi o melhor filme da semana porque Michele Soavi veio para acabar com a festa. Ele não compareceu à ocasião, como previsto, mas ninguém lamentou no fim. Arrivederci Amore, Ciao é um policial violentíssimo, cínico e com uma força visual imensa. Pena que Soavi dirige tão pouco para telona, pois o talento dele aparece em cada plano. O filme tem uma guinada final que não me satisfez por completo, mas é o que mais o aproxima do gênero que fez a fama do realizador, além de ser perfeitamente coerente. Novamente, Soavi consegue uma caracterização perfeita do personagem principal.
Dois candidatos a ficar entre os 10 melhores do ano, o do Soavi com franca vantagem.
"Francis Coppola estava sentado com umas 20 pessoas, todas da equipe de Cotton Club, tomando café na suíte do hotel. Eu estava lá como amigo de um amigo. De repente alguém trouxe o NY Times e o NY Post. Coppola começou a ler e todos ficaram em silêncio absoluto. Depois de ler os dois jornais, Francis disse: 'Eles não gostam de mim aqui. Não gostam de mim porque eu não sou daqui.' - e se levantou, dirigindo-se à porta que dá acesso à varanda. Todos sabem que as janelas e varandas dos hotéis de NY, àquela época do ano, ficam permanentemente fechadas. É como aqui em Montreal, as varandas dos hotéis só servem para o verão, ninguém agüenta o frio fora do verão. Mas Francis fez questão de fazer sua cena, dizendo que iria se matar. Enquanto ele "fingia" que tentava abrir a porta, quase todos da sala ficavam repetindo 'Oh, Francis, não faça isso', 'Oh, Francis, nós precisamos de você', 'Oh, Francis, nós te amamos'. Foi uma das cenas mais patéticas que já vi em minha vida. Francis tinha feito um filme horrível, One From a Heart, e Cotton Club não é também grande coisa, mas ele naquela época todos o bajulavam. Numa outra ocasião, fui convidado para comer um spagheti na casa dele. Francis cozinha muito bem e estava bem curioso sobre velhas histórias de Hollwood que eu podia lhe contar. Mas da parte dele, só reclamações de dificuldades. Só ficava tranquilo quando falava da comida. Eu disse "Francis, cuidado com esses filmes de orçamento absurdo, se não você vai deixar o cinema para ser vinicultor.'- mas acho que já era tarde demais"
"Alguém aqui acredita que aquele bebê é mesmo de Tom Cruise? Todo mundo em Hollywood sabe que Tom Cruise não pode ter filhos. Bem, EU sei que ele não pode ter filhos porque meu urologista foi urologista de Tom durante muito tempo. Ele me disse que Tom pegou gonorréia quando foi garoto de programa - como boa parte dos atores novos que não vêm do teatro, Tom foi garoto de programa durante uns três anos antes de fazer sucesso. Mas ele era estúpido, transava sem camisinha, pegou gonorréia e demorou duas semanas para ir ao médico depois que a coisa apareceu. Ele falou para o médico que achava engraçado porque ficava gozando sem parar e aí começou a coçar até virar uma ferida. Meu médico lhe disse 'idiota, você não tava gozando, era pus!!!' - mas já era tarde demais, porque Cruise tinha ficado estéril."
"Eu quis fazer Mouse Heaven porque eu e Paul adorávemos Mickey Mouse, somente por isso. Mas Paul estava muito doente, porque sempre foi muito rico e quando você é muito rico você pode comprar uma montanha de cocaína e cheirar. Ele fez isso várias vezes durante seus 20 e poucos anos. Eu não estou discursando contra veneno, pois veneno pode ser bem interessante e te dar muito prazer, mas o fato é que, quando você tem dinheiro você compra mais veneno do que as pessoas normais. Então Paul passou uns 15 anos de sua vida com os rins completamente fudidos, e fazia hemodiálise todos os dias, quatro horas por dia. Era um inferno... e eu fico simplesmente puto da vida que ele morreu antes de ver o filme pronto!"
As três quotes acima foram tiradas de uma masterclass de Kenneth Anger, ontem, na Concordia, em função do lançamento de um documentário sobre ele que passa no Festival du Nouveau Cinéma (Anger Me). Sobre a terceira citação, não lembro bem o sobrenome do tal de Paul, mas tudo leva a crer que seria seu último namorado. Anger terminou a frase em lágrimas. O detalhe é que foi a primeira coisa que ele falou!
Uma masterclass de Anger é uma demonstração aberta do que é essa figura única da cultura americana. O especialista em Crowley, amigos dos Stones, que foi morar em Paris a convite de Jean Cocteau (que adorava Fireworks), que teria feito uma montagem própria do Que Viva México! do Eisenstein (Anger era obcecado pela montagem eisensteiniana, o que é visível em alguns de seus filmes), amigo e colaborador de Kinsey - Anger tinha entrada e conhecimento intelectual em várias áreas, mas prefere publicamente manifestar-se como o personagem folclórico que criou, Mr. Hollywood Babylon, do que ficar dando discursos sobre a cultura american. Na sua fala fútil, que chuta o balde pra tudo quanto é lado, Anger escancara boa parte do decadentte mecanismo de funcionamento de Hollywood, sem esconder seu fascínio por ele.
Da mesma maneira, Mouse Heaven faz isso com o Mickey Mouse. O problema é que o filme não tem um pingo do brilho dos primeiros mais antigos. Aliás, vê-lo logo depois de rever Fireworks só acentou isso. Parece que, como Coppola, Anger se encruzilhou em seu próprio trabalho. Como Cruise, descobriu que estava infértil quando era tarde demais. A solução é rir, mesmo com amargura, do jogo de egos e podridões que criaram essa Hollywood da qual ele é cria e crítico. Aliás, Anger anunciou um possível terceiro volume de Hollywood Babylon.
Do 21° ao 30°, sem pensar a ordem interna: La Dolce Vita Uma Mulher é uma Mulher Fahrenheit 451 Os Inocentes A Dança dos Vampiros Era Uma Vez no Oeste Hatari! A Religiosa Les Biches Viver a Vida
Depois, sem ordem: Teorema A Band A Part Jules et Jim Minha Noite com Ela La Jetée (curta não valia para eleição da Liga, mas aqui vale) Zazie no Metrô La Piscine A Noite O Eclipse O Leopardo Rocco e seus irmãos Black Sunday Wild Bunch Schock Corridor Naked Kiss Sangue Sobre a Neve Psicose Dr. Strangelove Reflexions in a Golden Eye West Side Story Bonnie and Clyde The Graduate Targets A Família Fuleira O Professor Aloprado De Caniço e Samburá O Terror das Mulheres O Otário Take the Money and Run A Mulher de Todos Deus e Diabo na Terra do Sol Terra em Transe O Caso dos Irmãos Naves São Paulo SA Vidas Secas Copacabana me Engana À Meia-Noite Levarei Sua Alma Viridiana A Bela da Tarde Os Mil Olhos do Doutor Mabuse Sinais de Vida Fando e Lis Yojimbo Repulsa ao Sexo O Bebê de Rosemary Cul-de-sac Bonequinha de Luxo Se Meu Apartamento Falasse Escrito por Milton do Prado às 12h49
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Top 20 anos 60
Mais outra função da Liga dos Blogues. Escolha difícilima, muita coisa boa de fora, cada vez que olho já quero mudar alguma ordem. Um nome toma conta da década: Godard (que por pouco não tem outro título incluso).
Sem mais delongas, meu Top 20 anos 60, hoje:
1. Pierrot le Fou (O Demônio das Onze Horas, 1965), de Jean-Luc Godard 2. L'Annéee Dernière en Marienbad (O Ano Passado em Marienbad, 1961), de Alain Resnais 3. Blowup (Depois Daquele Beijo, 1966), de Michelangelo Antonioni 4. Le Mèpris (O Desprezo, 1963), de Jean-Luc Godard 5. O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla
6. 8 1/2 (1963), de Federico Fellini 7. 2001: a Space Odyssey (2001: uma Odisséia no Espaço, 1968), de Stanley Kubrick 8. The Birds (Os Pássaros, 1963), de Alfred Hitchcock 9. El Angel Exterminador (O Anjo Exterminador, 1962), de Luís Buñuel 10. The Man Who Shot Liberty Valance (O Homem que Matou o Facínora, 1962), de John Ford
11. Il Buone, il Brutto, il Cativo (Três Homens em Conflito, 1966), de Sergio Leone 12. Cléo de 5 à 7 (Cleo de 5 às 7, 1961), de Agnès Varda 13. Le Procès (O Processo, 1962), de Orson Welles 14. Persona (Quando Duas Mulheres Pecam, 1966), de Ingmar Bergman 15. Kwaidan (1964), de Masaki Kobayashi
16. À Bout de Souffle (Acossado, 1960), de Jean-Luc Godard 17. The Party (Um Convidado Bem Trapalhão, 1968), de Blake Edwards 18. Noite Vazia (1964), de Walter Hugo Khouri 19. Lawrence of Arabia (Lawrence da Arábia, 1962), de David Lean 20. Les Parapluies de Cherbourg (Os Guarda-Chuvas do Amor, 1964), de Jacques Demy
Como eu comecei a falar antes no messenger, tive uma experiência fantástica ontem vendo Jeanne Dielman, 23 Quai du Commerce, 1080 Bruxelles. Posso dizer que poucas vezes tive esse tipo de sensação no cinema - o que não quer dizer que foram poucos os filmes que considero obra-prima, mas que foram certamente menos de 15 aqueles que me fizeram descobrir numa capacidade nova do cinema, mesmo que eu não saiba ainda exatamente que capacidade é essa.
São três dias na vida de uma mulher, viúva e mãe de um filho adolescente, que passa o dia arrumando a casa, fazendo a comida, indo ao banco, tomando um café sempre no mesmo lugar, procurando um botão para o casaco do filho e ganhando uns trocos com duas atividades feitas em momentos diferentes: tomando conta de um bebê e se prostituindo em seu apartamento. A atividade doméstica é mostrada em minúcias e a obsessão metódica da personagem tem um equivalente formal nos enquadramentos e na mise en scène. Na masterclass de ontem, Akerman disse que encontrou cedo sua forma, depois se sentiu presa, para mais tarde ainda se dar conta que isso não era um problema - e o filme mais novo dela, Là-Bas, que vi na quinta, é quase uma variação do Jeanne Dielman para abordar um tema completamente diferente (o significado de Tel Aviv para uma judia que se questiona sobre o lugar - filme corajoso e radical!). O mais absurdo é que as três horas e vinte passam numa boa, desde que você embarque no mundo que ela apresenta, o que comigo aconteceu ali com 30 minutos de filme. Digo sem medo: o filme apresenta alguns dos enquadramentos mais lindos que já vi no cinema, inclusive pelo tratamento de cor. E a anti-interpretação de Delphine Seyrig é uma das grandes atuações femininas do cinema.
O final é de uma força absurda e até agora estou entortando meus neurônios para entender o complexo feminismo dessa mulher fantástica. Jeanne Dielman é daqueles filmes cuja forma radical é completamente justificada pelo que ele mostra. Forma é conteúdo e vice-versa.
Até duas semanas atrás nunca tinha visto nada da Akerman. Em vídeo vi Demain on Démenage, que é simpático, e Un Divan à New York, que achei horroroso, mas que é um filme muito popular por aqui. Na sexta ela disse que foi a pior experiência da vida dela e deixou claro que não gosta do filme (não sei antes alfinetar a Binoche e o Willian Hurt hehehe).
Pude ver também dois curtas (o primeiro, interessante, e um dos anos 80, J'ai faime, j'ai froid, que achei genial). Mas foi com Là-Bas e Je, Tu, Il, Elle que comecei a entender qual era a dessa mulher. Acho muito difícil que tenha algo que se iguale a Jeanne Dielman, mas estou curioso pelo resto. Infelizmente, acho que não vou ter tempo para ver (o que é mais triste quando penso nas questões sobre tempo que essa mulher coloca nos filmes).
Fiquei louco para te escrever porque me lembrei de uma cena ali pelos idos de 2002 ou 2003: eu tava te deixando em casa, depois de algum trabalho, e a gente tava meio cansado (devia ser algum trabalho pra RBS). Daí eu disse que tava louco para ir no cinema, mas que a programação não tava muito boa. E tu completou dizendo que fazia muito tempo que não fazia a descoberta de um cineasta, mas de um cineasta com uma carreira, "tipo Chantal Akerman".
Pois é, agora descobri um pouco dela. Curioso que em setembro eu tenha revisto quase tudo da Maya Deren e tenha visto pela primeira vez India Song, da Duras, o que fez com que esse mês tenha sido especialmente feminino no cinema. Geniais, essas mulheres.
Abração,
Milton
PS: acho que vou publicar essa mensagem no blogue."