Uma das coisas mais impressionates no livro do James Ellroy é a descrição do cadáver da Dália Negra quando ele é encontrado. O nível de detalhamento e a perfeita noção do efeito daquela descrição no leitor é uma das provas do talento literário de Ellroy. Essa notícia de anteontem nos faz lembrar de onde vem sua fonte de inspiração:
Melhor cinema de Montreal, o conjunto de três salas do Cinèma du Parc fechou as portas agora em agosto, ao que tudo indica, definitivamente, ou ao menos até encontrar um comprador. Sua excelente programação combinava lançamento de filmes alternativos, reprises com cópias restauradas (Agonia e Glória, Duck You Sucker, Edvard Munch etc) ou não (Era uma Vez na América, Ereaserhead), sessões da meia-noite com o melhor do cinema de horror ao nunsplotation, era sede de festivais pequenos, passava animações adultas, curtas etc. Ficava num subsolo de um prédio, não possuía luxo algum (embora fosse muito bom tecnicamente), localizado numa parte da cidade de confluência francófona/anglófona, era vivo, bem-frequentado. Tinha cara de cinema de rua - era sempre um prazer ir ao Cinèma du Parc e esticar num café ou pizzaria vagabunda para conversar sobre o filme.
Pois bem, os proprietários declararam queda na freqüência, o que é verdade, mas há muito pouco tempo. Acusam a concorrência desleal do AMC Forum, um megaplex com 22 salas que passou a exibir filmes "de repertório". Só que quem freqüentava o Cinèma du Parc sabe que esse papo é semi-furado. Mesmo o Ex-Centris, do mesmo proprietário e com perfil muito mais parecido, não roubava seu público (Evidentemente, o Ex-Centris não tem 22 salas, mas 3, mas o AMC não passa filmes de repertório em todas as salas). O ex-proprietário também culpa a internet, a facilidade em baixar filmes etc. Não sei, os motivos apresentados não parecem mentira, mas não me convencem completamente. Acho que a história é outra. Daniel Langlois parece mais interessado em investir na sua pesquisa de novas tecnologias, incluindo aí sua parceria na produção de videogames, do que continuar com cinemas com conceito mais antigo (ou ficar apenas com um deles).
Enfim, história triste. Montreal tem uma programação razoável de cinema, mas com muitas lacunas, e agora a situação piora. Uma vez pensei em criar a série "Templos", sobre os cinemas daqui, mas não levei adiante, escrevendo somente sobre o finado Cinèma du Parc (quem quiser ler/reler, vai nos arquivos de fevereiro de 2005, dia 11/02).
Na primeira cena com o personagem de Woody Allen (o mágico Splendini, ou melhor, Sid Waterman) em Scoop, vemos o velhinho fazer os números de mágica mais simples, para não dizer idiotas, que existem. São números batidos, que já vimos mil vezes, mas mesmo assim todos na sala riem e aplaudem, porque o que a graça está em quem está fazendo. Há filmes de Woody Allen em que ele se propõe a trabalhar um pouco mais algumas questões narrativas ou visuais, com resultados variáveis (Match Point e Celebridades, para ficar com dois exemplos recentes). Há outros em que a proposta é ilustrada pela citada cena: praticamente refazer a idéia de um outro filme para ver o que dá, se ainda tem graça.
E o próprio Scoop é o perfeito exemplo disso, uma variação de algumas idéias presentes em outros filmes, em particular o Escorpião de Jade - só que, nesse caso, a variação é melhor que a "fonte" (fonte entre aspas, mesmo, pois o Escorpião de Jade já era variação de Alice com outros filmes). É incrível como Allen aproveita muito bem a atmosfera londrina (mais que a paisagem) de uma certa aristocracia, com uma chave mais cômica que em Match Point. E é incrível que tenha encontrado em Scarlett Johansson um par cômico perfeito. Bonita e cada vez melhor atriz, Johansson faz uma versão jovem e feminina do personagem que Allen já encarnou dezenas de vezes. É mais uma variação que Allen espertamente conseguiu nesse novo filme.
De resto, dá para dizer que a maioria das piadas é bem afiada, que há algumas boas sacadas (quando quer, Allen sabe usar elipses cômicas como poucos) e ainda, para quem gosta, o bonitão e talentoso Hugh Jackman.
Não vai ser dessa vez que o Michal Mann vai me conquistar. E olha que acho que Miami Vice é de um ousadia incrível na radicalização das (possíveis) obsessões visuais dele - de uma certa maneira, tanto esse quanto o Lady in the Water são dois filmes radicais na carreira dos respectivos diretores, mas nenhum dos dois deu muito certo. Curioso eles estrearem tão perto um do outro.
Posso dizer que a utilização de câmera em Miami Vice beira o experimental, tanto pelo enquadramento quanto pela exploração das texturas do vídeo, criando momentos incríveis. Mann parece ter bastante consciência da "dupla face" do vídeo, que dá uma urgência calcada na realidade ao mesmo tempo que permite experimentos visuais bastante livres.
Mas a trama (que tem uma importância muito grande aqui) é de uma banalidade tão grande que cria cenas que beiram o constrangimento, particularmente algumas onde interagem Gong Li e Collin Farrel - este último, como se não bastasse a canastrice natural, tem as piores falas do filme, embora a caracterização "canalha do bem" o ajude. Já o Foxx tá tão apagado que dá pena.
De modo que o filme é um revezamento de cenas boas com momentos maçantes, ainda que cresça a partir da cena do trailler e que o tiroteio final seja muito bom e sirva de exemplo máximo para o tal "experimentalismo" que falei.
Mais nas coxas que a dos anos 80, então a ordem é bem mais ou menos:
A Lira do Delírio (esse daqui deveria estar na lista dos 20, foi esquecimento, mesmo) The Wicker Man A conversação O Poderoso Chefão 2 O Amuleto de Ogum Morte em Veneza Violência e Paixão Martin All That Jazz Inverno de Sangue em Veneza La Rupture Solaris O Amigo Americano O Discreto Charme Mash Cerimônia de Casamento Obsession Frenesi McCabe and Mrs Miller Nashville O Joelho de Claire Providence Aguirre Kaspar Hauser Verão de 42 O último Tango em Paris Annie Hall Perdida Tubarão Encurralado Saló O Homem que Amava as Mulheres Paixão Selvagem O Império dos Sentidos A Vida de Brian Eraserhead A última Noite de Boris Grushenko Hair O Homem que queria ser Rei Suspiria Chinatown Um Estranho no Ninho Pai Patrão O Tambor Halloween Fedora Liliam M - Relatório Confidencial
Com atraso de quase dois meses, coloco minha lista de melhores dos anos 70 feita para a Liga dos Blogues. Novamente, feita com muita dificuldade, pois, junto com a década de 60, essa talvez seja a minha décade preferida no cinema (talvez, mesmo, porque nunca fiz as listas das décadas anteriores). Por isso, os 10 primeiros lugares podem tranquilarmente trocar de lugar.
Aqui você vai encontrar alguns preferidos da casa, como Leone, Welles, Scorsese, Buñuel. Mas também encontrar alguns ilustres que provavelmente entrariam com um filme só, somando-se todas as listas de todas as décadas (Makavejev, Lumet, Peckimpah, Mojica, Cimino) e outros que sempre hesito em colocar entre os preferidos e sempre emplaca unzinho (Bergman, De Palma).
Só para variar, segue nos próximos dias a lista dos reservas.
Meu Top 20 anos 70, hoje:
1. Professione: reporter (O Passageiro - Profissão: Repórter, 1975), de Michelangelo Antonioni 2. Amarcord (1973), de Federico Fellini 3. Giù la Testa (Quando Explode a Vingança, 1971), de Sergio Leone 4. The Deer Hunter (O Franco Atirador, 1978), de Michael Cimino 5. Apocalipse Now (Apocalipse, 1979), de Francis Ford Coppola
6. W.R. - Misterije organizma (W.R. - Os Mistérios do Organismo, 1971), de Dusan Makavejev 7. The Godfather (O Poderoso Chefão, 1972), de Francis Ford Coppola 8. Le Locataire (O Inquilino, 1976), de Roman Polanski 9. Vérités et mensonges (Verdades e Mentiras, 1974), de Orson Welles 10. Taxi Driver (Motorista de Táxi, 1976), de Martin Scorsese
11. Alice in den Städten (Alice nas Cidades, 1974), de Wim Wenders 12. Bring me the Head of Alfredo Garcia (Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia, 1974), de Sam Peckinpah 13. C'est Obscur Objet du Désir (Esse Obscuro Objeto do Desejo, 1977), de Luís Buñuel 14. O Despertar da Besta (1970), de José Mojica Marins 15. The Phantom of the Paradise (O Fantasma do Paraíso, 1974), de Brian De Palma
16.Two-Lane Blacktop (Corrida Sem Fim, 1971), de Monte Hellman 17. Manhattan (1979), de Woody Allen 18. The Clockwork Orange (Laranja Mecânica, 1971), de Stanley Kubrick 19. Viskningar och rop (Gritos e Sussurros, 1972), de Ingmar Bergman 20. Dog Day Afternoon (Um Dia de Cão, 1975), de Sidney Lumet
Alerta especial para quem usa o programa de visualização geográfica "Google Earth". Antônio Assis Brasil, filho de um amigo de Porto Alegre, descobriu que, desde a madrugada de ontem, a visão a partir do espaço de uma ampla região da Terra foi sensivelmente alterada, como mostra a imagem de satélite abaixo. Especialistas afirmam que o fenômeno deve inclusive se alastrar nos próximos meses.
Sem dúvida, Histoire de Marie et Julien é um dos filmes mais românticos e bonitos dos últimos tempos, e muito de seu sucesso deve-se à maneira como o filme explora e trabalha o mistério.
A cena de abertura é chave: um homem (Julien) encontra uma mulher na rua (Marie) e ambos relembram um encontro que aconteceu há um ano, ou há pouco mais de um ano. Os ecos de Marienbad ressoam até que a cena fica um pouco absurda e nos damos conta que estamos num sonho de Julien. Logo, porém, parte desse sonho se reproduz, e ele reencontra Maria na rua, antes de partir numa chantagem da qual ele é agente ativo. Há o mistério da trama da chantagem (o que exatamente a chantageada fez de errado? Como Julien conseguiu o materal da chantagem?), o mistério do casal (o que fez eles se reencontrarem um ano depois?) e, principalmente, o mistério de Marie (quem é exatamente ela? Que segredos ela guarda?). Algumas dessas respostas vão ser dadas à medida que o filme avança e o ponto de vista dele é trocado pelo dela. Nessa viagem ao centro de um casal, o erotismo é uma das chaves, até porque a palavra "carnal" vai obter diversos significados.
Amor eterno, efeitos especiais brega-chiques, visual "bonito" escondendo a pobreza imagética, diálogos kitchs. Ai ai ai, esse Arô é talvez o maior engodo entre os novos engodos.
OSS 117 é um herdeiro honrado do melhor do trio Zucker-Abrahams-Zucker, de uma época em que eles sabiam fazer paródias malucas e não confundiam isso com enfileirar brincadeiras com sucessos recentes do cinema. O filme de Michel Hazanavicius tem a vantagem de vir com uma bem-vinda tiração de sarro dos próprios franceses e seu eurocentrismo. Desse modo, a evidente brincadeira em torno do Bond de Sean Connery não morre em torno de uma ou duas piadas, e o ator Jean Dujardin, com seu jogo de sobrancelhas e sorrisos imbecis, contribui bastante para isso. O filme não tem medo do ridículo (e piadas como a que o espião aprende a contar até cinco em árabe se desdobram até não poderem mais), mas tem muito mais a oferecer que pastiches como Austin Powers ou avacalhações à Hermes e Renato, sabendo exatamente a diferença entre não se levar a sério e não levar as coisas a sério. E em uma cena particular, quando ele se disfarça de fanático para entrar numa reunião de um grupo extremista, os trejeitos e as caras de Dujardin não deixam de remeter a um tipo de humor brasileiro entre o Ronald Golias e o Renato Aragão. Se nem tudo é 100%, é porque algumas situações vencem pelo cansaço, mas, ainda assim, OSS 117 é um dos filmes mais divertidos do ano.
Shyamalan continua nesse filme com seu projeto de para se tornar o principal fabulista do cinema americano atual. Lady in the Water tem uma lição de moral, constrói um universo próprio e, mais do que qualquer outro filme do realizador, é um elogio a arte de contar histórias (Story é o nome da garota que vem da água). Para o bem e para o mal.
Evidentemente, esse "contar histórias" não se resume à mera ilustração do roteiro ou a obediência cega ao blá-blá-blá dos três atos. A já conhecida sofisticação visual de Shyamalan (não somente fotográfica, mas de mise en scène como um todo) está cada vez mais evidente, mesmo que aqui ele repita alguns procedimentos - no início do filme, na primeira vez que o personagem de Giamatti corre para dentro da casa com Story ao lado, fugindo da criatura, há praticamente uma recriação de um plano de A Vila, só que do eixo contrário. E a parceria com Christopher Doyle rendeu bastante, já que aqui havia a necessidade clara de trabalhar planos mais fechados que nos outros filmes, sem necessariamente parecerem claustrofóbicos, o que o fotógrafo faz muito bem.
Uma das grandes sacadas do filme está justamente na manutenção do espaço único. Tudo se passa num condomínio fechado, com Giamatti sendo o zelador do local (no sentido mais amplo possível). Ao contrário dos outros filmes dele, o fantástico se estabelece logo no início, e todo o filme vai ser praticamente a história da adaptação dos personagens que vivem nesse microcosmo a uma realidade absurda e nova. Tão absurda que a única maneira de embarcar nela é fabular ao máximo possível, abrindo o espírito e negando o absurdo - não é à toa que uma criança vai ter um papel decisivo no final.
Desse modo, o filme se constrói com grande coerência, mas acaba por ficar preso na própria proposta. Porque, por mais elaborado visualmente que seja, toda o desenrolar da trama é resolvido oralmente, e tinha que ser assim pela idéia do filme. Lady in the Water é um filme-gêmeo de Corpo Fechado, porém mais redundante, exigindo muito para se embarcar o jogo. E o pior: em determinados momentos, o filme descamba um pouco para a auto-indulgência, como nos comentários do personagem de Bob Balaban, um crítico para quem os filmes se resumem a plots. O que poderia ser um comentário irônico interessante a seus detratores acaba soando mais como provocação infantilóide desnecessária. De resto, a própria participação de Shyamalan parece um pouco despropositada e vai servir de combustível para muita gente.
Felizmente, o que fica é a exelente ambientação e o grupo de moradores do prédio, personagens criados com carinho e que são, quase sempre, defendidos com força por um ótimo time de coadjuvantes (Jeffrey Wright e Cindy Cheung à frente). Bryce Dallas Howard está linda e Paul Giamatti honra a tradição de grandes personagens principais dos filmes do diretor. E Shyalaman mostra, em vários momentos, que o cinema ainda pode tirar muito do poder de sugestão - como na primeira e genial cena do filme. No cômputo geral, um bom filme que mantém o interesse na carreira de um realizador singular, que não tem medo de meter as caras em projetos de risco.