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Gainsbourg et Birkin: um texto contrabandeado para o fim-de-ano
Não gostaria de acabar o ano sem falar da minha maior fixação em 2005: Serge Gainsbourg e Jane Birkin. A cada disco escutado, a cada filme visto, fico impressionado com a produtividade, influência e qualidade do que eles fizeram. Acima de tudo, eles exercem em mim uma fascinação que ainda está longe de acabar.
Por duas vezes, comecei a preparar um texto sobre eles que não foi adiante. Deixo para o futuro. Por hora, deixo aqui o texto do Rafael Galvão, um colega de ginásio em Aracaju, que já naquela época gostava de cinema e beatles. Recentemente descobri o blog do cara, que, mesmo não sendo exclusivamente de cinema, deixo como recomendação para quem gosta de um bom texto. Assino em baixo de quase tudo que ele escreveu, provavelmente bem melhor do que eu faria, pois a sensação de descoberta é parecida. Com certeza voltarei à dupla ano que vem. Feliz 2006 para todos.

O HOMEM DA CABEÇA DE REPOLHO, por Rafael Galvão
"A primeira vez que ouvi falar de verdade a respeito de Serge Gainsbourg foi em 1998, em um documentário qualquer exibido pelo Multishow.
Como todo mundo, eu conhecia Gainsbourg desde sempre, mesmo sem saber: através de Je T'Aime, Moi Non Plus, a "melô do motel". E como todo mundo, eu tinha um desprezo enorme pelo sujeito, porque ele, claro, era apenas um palhaço brega, autor de uma piada que deu certo.
Foi aquele documentário, apresentando uma perspectiva diferente, mais abrangente e principalmente mais informada, que me fez ver que as coisas não eram bem assim. Na verdade, Gainsbourg era brilhante e eu não era tão inteligente quanto pensava.
Agora leio "Um Punhado de Gitanes", de Sylvie Simmons, e minha opinião muda novamente. Gainsbourg era um gênio e eu, por não reconhecer isso com a presteza necesssária, sou um idiota. Simples assim.
Não foi à toa que Gainsbourg se tornou ídolo na França. Quase uma instituição -- meio torta, é verdade, mas ainda assim uma instituição. Talvez um pouco disso seja pelas mulheres que teve: Brigitte Bardot, naquela época, era um acréscimo e tanto ao currículo de qualquer um. Mas seria diminuir Gainsbourg creditar sua fama a isso: ele conseguiu mais, e fez excelente música com ela. Em Comic Strip, por exemplo, o que o sujeito faz é fantástico: coloca BB para fazer os sons das onomatopéias dos quadrinhos. É brilhante, absolutamente brilhante.
Depois veio Jane Birkin, a mulher que praticamente se tornou a outra metade de Gainsbourg.
É difícil saber qual o maior talento de Gainsbourg. Talvez seja o de letrista. A delicadeza de letras como a de Comment Te Dire Adieu (Mon coeur de silex vite prend feu / Ton coeur de pyrex resiste au feu (...) Sous aucun prétexte je ne veux / Devant toi surexposer mes yeux / Derrière un Kleenex je saurais mieux) mostram que o sujeito tinha um talento descomunal para jogos de palavras e para o inusitado -- rimar Silex, Pirex e Kleenex, e ainda aparecer com um prétexte e um surexposer belamente desconstruídos, não é para todo mundo. Mas pouca gente no Brasil sabe disso. É essa a nossa triste sina: a anglofilia idiota e compulsória pós-1964 impede que uma letra instigante como a de Je T'Aime, Moi Non Plus (que significa algo como "Eu te amo, eu também não") seja compreendida, e então um conjunto brilhante (acordes repetitivos, interpretação com conotação fortemente sexual, letra cheia de duplo sentido) é relegado a isso, a "música de motel".
Gainsbourg tinha uma qualidade rara: para ele, cada canção era uma canção. É o que explica sua trajetória errática, do jazz ao reggae, passando por virtualmente todos os gêneros da música popular. Algo em Gainsbourg fazia com que ele estivesse sempre atrás do que havia de mais atual na música. E não era só isso: ele tinha também uma concepção própria da arte e da música, mais elaborada do que os escândalos que protagonizava poderiam fazer pensar.
Mas foi durante os anos 70 que Gainsbourg se tornou realmente grande. Ao talento natural do compositor ele acrescentou uma maturidade como artista que, de longe, o transformou no maior músico francês, e uma seqüência de grandes discos apareceu a partir daí.
O primeiro é o Histoire de Melody Nelson, de 1971, um álbum conceitual que conta a história da paixão de um francês de meia idade por uma garota inglesa, e que, como a história semelhante contada por Nabokov, só pode acabar em tragédia. A última faixa, Cargo Culte, é uma das mais tragicômicas de um sujeito qeu se especializou nisso.
Depois vem Vu de L'Extérieur. Se alguém ficou encantado com o "Secreções, Excreções e Desatinos" de Rubem Fonseca deveria escutar esse disco, uma ode à escatologia em canções como Des Vents Des Pets Des Poums e na belíssima Sensuelle et Sans Suite (Une histoire sensuelle et sans suite / Ça fait crac ça fait pschtt). Quando lembram do talento de Cazuza ao encaixar "desminlingüido" numa canção, eu penso em como Gainsbourg conseguiu fazer poesia com os sons que saem do traseiro de alguém.
E L'Homme À Tête de Chou, para muita gente um de seus melhores discos.
Aux Armes Et Caetera, de 1979, é, acima de tudo, um grande disco de reggae. Não podia ser diferente, com Sly Dunbar e Robbie Shakespeare na cozinha, e Rita Marley nos backing vocals como parte do The I Three. A faixa-título causou escândalo na França por ser uma versão reggae da Marselhesa, as outras deixaram Bob Marley puto ao descobrir que sua mulher tinha cantado letras eróticas sem saber, e o disco consolidou a imagem de Gainsbourg para sempre.
"Um Punhado de Gitanes", no entanto, é parcial. Embora se pretenda apenas um apanhado geral sobre a vida e a obra de Gainsbourg, e tenha bastante sucesso nisso, falha em deixar mais claro que, a partir dos anos 80, a trajetória de Gainsbourg foi de decadência absoluta, tanto pessoal quanto musical. O Serge Gainsbourg que aparecia nos programas de entrevistas, aquela tradição francesa insuportável, era apenas uma sombra de um artista que havia sido realmente grande. Seus discos passaram a ser ruins, medíocres; sua vida se tornou ainda mais caótica. Seus vocais falados se tornaram caricaturas. O homem que morreu em 1991, um mês antes de completar 63 anos, estava doente e quase cego, com apenas um terço de seu fígado. Mas aquele era o homem que, para tanta gente, ofereceu mais contribuições à língua francesa no século passado. E, mesmo decadente, era o sujeito que em um daqueles tais programas disse -- e repetiu em outra lingua, para que não ficasse dúvida -- em alto e bom som para uma Whitney Houston escandalizada: "Eu quero foder você."
Meus ídolos são velhos. São os mesmos há anos. É um alívio encontrar, depois de tanto tempo, um sujeito que foi adolescente até os 63 anos, que manteve, para o bem e para o mal, a pureza idiota e caótica de uma puberdade que não queria passar e que se manifestava não apenas em Gitanes sucessivos, mas em música de qualidade e poesia inteligente. Meu panteão de heróis, de repente, se renova."
Escrito por Milton do Prado às 21h39
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brogues e mais brogues
O Multiply da Ana Paul, que visito há algum tempo, e nunca tinha acrescentado aqui. Ela não gosta muito de escrever nos posts, é preciso ir atrás dos comentários.
Free as a Weird, do Guilherme Martins, tem talvez o melhor nome de blog que conheço e também algo mais.
O Signo do Dragão mudou de endereço e deixou no antigo um recado carinhoso para o weblogger.
E aguardem... o Projeto 365 voltará em breve!!!!!
Escrito por Milton do Prado às 20h12
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King Kong
O novo King Kong parece procurar recuperar um espírito de aventura que andava meio sumido, não no sentido que Os Caçadores da Arca Perdida fez, recuperando o clima das matinês de cinema e atualizando-a para o blockbuster que se consolidava, mas no sentido da grande aventura à la Stenvenson, Conrad etc, que buscavam na fascinação pelo desconhecido o fundamento de suas histórias. O filme é extremamente eficiente na construção dos personagens e seu primeiro terço é basicamente dedicado a isto. Uma magnífica apresentação de Nova York na grande depressão, diálogos saborosos, aproveitamento perfeito do elenco, personagens secundários excelentes e citações bem-vindas (Coração das Trevas, por exemplo) só contribuem para o envolvimento com um filme de ritmo perfeito, que nem os excessos de enjoativas câmeras-lenta estragam. Os outros dois atos do filme todos também já conhecem: a luta na selva depois do rapto da mocinha pelo gorilão e sua fuga em plena Nova York depois da captura, mas é nessa primeira parte que parece se construir realmente o filme.
O suspense é criado pelo anunciado do desconhecido (por isso se justifica também a década de 30 do história), quando na verdade já sabemos o que vamos ver na essência. A questão é, COMO vamos ver. Pois a composição do monstro King Kong não é somente perfeita em termos de efeitos especiais, como se justifica plenamente pelo que o filme vinha construindo até então como aventura. E toda a aventura dentro da ilha, com seus dinossauros e insetos gigantes, vai ao encontro de provar o realismo, a materialidade desse mundo. De certa forma, era isso que o King Kong de 1933 já fazia, mas não esqueçamos que Peter Jackson tem uma carreia extremamente coerente de filmes que tentam materializar fantasias e aventuras. Já em Meet the Feebles ele parece querer provar que isso depende mais da decupagem, da direção em geral, do que dos efeitos especiais. Desde este filme que Jackson mostra uma extrema noção de ritmo e uma grande capacidade de concretizar seres inexistentes. Obviamente, à medida em que ele vai ganhando "respeito" na indústria, os orçamentos vão ficando maiores e ele pode contar com a tecnologia de ponta. É desse "capital acumulado" e desse talento que saem o que a gente vê na tela na nova versão da história do macacão.
Então não bastam somentes os efeitos especiais caríssimos (tem gente que reclamou de alguns trechos, mas eu acho que a homenagem ao cinema à antiga está presente também em algumas "falhas", sobretudo pela fotografia), nem as expressões humanas do bicho. Importam também o ritmo, o tempo em que ele está na tela e fora de quadro, sua movimentação em relação aos humanos e aos outros monstros, seu volume, seu peso. No entanto, parece que é aí que aparece também a fraqueza do filme, pois há esse enorme esforço de dar peso ao gorila (e, em menor grau, aos outros monstros) e uma facilidade às vezes irritante de tirar o peso dos humanos. Concretiza-se o fantástico, mas se é incapaz de manter a concretude dos humanos. Há uma disparada de brontossauros, extremamente bem-feita e diveretida, mas improvável fisicamente no que se refere à imunidade dos humanos (sim, sei que tem um ou outro pisoteado, mas não é isso...). Numa das cenas mais fracas do filme, o roteirista narigudo e a mocinha fogem do macaco presos na pata de um morcegão. Vários personagens enfrentam todos os tipos de quedas e pancadas e parecem não sofrer nada, mas vemos detalhes do sangue na testa do macaco, ou da neve em seu pelo ao final do filme. Não se trata, de maneira alguma, de exigência de verossimilhança, mas da simples constatação dos limites do cinema proposto, que mesmo em mãos ágeis ainda não encontrou seu melhor equilíbrio como cinema. Daí para o kitsch de algumas passagens, como várias dispensáveis tomadas aéreas, é um pulo.
No entanto o filme tem uma vivacidade incrível. Vale ressaltar, a favor do filme e do realizador, que:
1) King Kong já é uma evolução à histeria fantasiosa kitsch do Senhor dos Anéis.
2) o desenvolvimento dos personagens e a criação de um universo próprio é extremamente positivo nesse sentido e supera o problema maior do filme.
3) há um profundo respeito, mas nenhuma veneração estúpida, ao ótimo filme original.
4) parece haver uma evidente noção dos limites do superespetáculo na cena em que o Kong foge do teatro, revelando no mínimo uma auto-crítica inteligente
5) na sua condução precisa e ritmo (quase) perfeito, no retrato de um amor impossível, concretizável somente num mundo fantástico, King Kong é o filme mais próximo de Almas Gêmeas, ainda o melhor filme do diretor.
Há alguns outros problemas menores, que não tiram nunca o prazer de ver o filme e de se mergulhar no seu universo, como numa aventura de um cinema caro, gigante, às vezes desengonçado, mas nem por isso menos fascinante.
King Kong ***
Escrito por Milton do Prado às 01h35
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Top 20 anos 90 - ainda esquecidos
Como só o assisti esse ano, acho que nunca o pensei como filme dos anos 90. Mas fique registrado que Audition (1999), de Takeshi Miike, merecia estar na lista.
Escrito por Milton do Prado às 01h20
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Top 20 anos 90 - os injustamente esquecidos...
Não vou alterar minha lista de 20, mas lembrei somente hoje de dois títulos que provavelmente entrariam nela. O consolo é que seriam nas últimas posições. Mas vale o destaque:
 
À Beira da Loucura (In the Mouth of Madness, 1994) de John Carpenter Amateur (1994), de Hal Hartley
Escrito por Milton do Prado às 01h43
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... e os nobres excluídos
Defesa Secreta Os Imperdoáveis A Fraternidade é Vermelha Desconstruindo Harry A Liberdade é Azul Lua de Fel Almas Gêmeas Os Idiotas Festa de Família Carne Trêmula Pelo Amor e Pela Morte A Ostra e o Vento Irma Vep O Reflexo do Mal Boogie Nights Quem Vai Ficar com Mary? La Línea Paterna Santo Forte The Adjuster Tierra Naked Lunch Através das Oliveiras Três Vidas e uma só Morte Edward Mãos de Tesoura Confiança Toy Story Fome Animal Clockers - irmãos de Sangue O Jogador Léolo De Olhos Bem Fechados Toto le héros Assédio
Escrito por Milton do Prado às 01h14
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Top 20 anos 90
A Liga dos Blogues Cinematográficos, em um exercício interessantíssimo de democracia, elegeu os 20 melhores filmes dos anos 90. Parabéns a todos e principalmente ao Chico, que coordenou o troço todo, Gostei bastante de ter participado, pois me dei conta que não pensava muito a década de 90 como algo do passado. Gozado, não? Abaixo, meu Top 20, com algumas observações:
- Há ausências que me doeram um pouco, notadamente Os Imperdoáveis, A Fraternidade é Vermelha, Desconstruindo Harry e Defesa Secreta.
- Há lacunas que penso que modificariam bastante esta lista, caso eu tivesse visto, como A Bela Intrigante (não, nunca vi), outros filmes do Tsai-Ming Liang etc.
- votei unica exclusivamente pelo meu gosto pessoal. Não procurei colocar um filme somente de cada diretor, mas acabou dando isso, por coincidência.
MEU TOP 20 ANOS 90, HOJE:
     01- Os Amantes do Círculo Polar (Los Amants del Círculo Polar,1998), de Julio Medem 02- Ondas do Destino (Breaking the Waves,1996), de Lars Von Trier 03- Estranhos Prazeres (Crash, 1996), de David Cronenberg 04- Cães de Aluguel (Reservoir Dogs, 1992), de Quentin Tarantino 05- Os Bons Companheiros (The Goodfellas, 1990), de Martin Scorsese
     06- Genealogias de um Crime (Généalogies d'un crime, 1997), de Raul Ruiz 07- O Poderoso Chefão 3 (The Godfather: Part III, 1990), de Francis Ford Coppola 08- O Rio (He Liu, 1997), de Tsai Ming-Liang 09- Um Olhar a Cada Dia (To Vlemma tou Odyssea, 1995), de Theo Angelopoulos 10- Short Cuts (1993), de Robert Altman
     11- Um Instante de Inocência (Nun va Goldoon, 1996), de Mohsen Makhmalbaf 12- Exotica (1994), de Atom Egoyan 13- Fogos de Artifício (Hana-Bi, 1997) de Takeshi Kitano 14 - Alma Corsária (1993), de Carlos Reichenbach 15- O Viajante (Homo Faber, 1991), de Volker Schlöndorff
     16- Crumb (1994), de Terry Zwigoff 17- Tudo Sobre Minha Mãe (Todo sobre mi madre, 1999), de Pedro Almodovar 18- Nó na Garganta (The Butcher Boy,1997), de Neil Jordan 19- Ed Wood (1994), de Tim Burton 20- O Pagamento Final (Carlito's Way, 1993), de Brian De Palma
Escrito por Milton do Prado às 13h27
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Cantinhos daqui 2

Minha rua em outubro.

Minha rua em novembro.

Minha rua hoje à tarde.
Escrito por Milton do Prado às 01h13
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Teorema 8 nas bancas
Chega às bancas e livrarias a oitava edição da revista Teorema - Crítica de Cinema. O lançamento será no bar Muffuletta, no próximo sábado, dia 17, a partir das 19h. A publicação, editada pelos críticos Fabiano de Souza, Flávio Guirland, Fernando Mascarello, Ivonete Pinto e Marcus Mello, reflete o bom momento do cinema brasileiro e traz diversos artigos que tratam de filmes nacionais. Este número, novamente com capa criada por Flávio Wild, também publica entrevista exclusiva com o que é chamado o maior crítico de cinema do País, Ismail Xavier.
Professor da Universidade de São Paulo, Ismail é, igualmente, referência obrigatória quando o assunto é teoria do cinema, tendo escrito livros fundamentais, como A Experiência do Cinema e O Discurso Cinematográfico ˆ A Opacidade e a Transparência. Nesta entrevista, Ismail discorre sobre o cinema brasileiro mais recente e aponta o que vê de mais interessante no cinema internacional em termos de radicalidade de linguagem e de estética. Critica a opção de alguns diretores por aderirem a um "padrão de cultura visual e dramática da televisão", e comenta o papel da crítica, assim como o método analítico praticado.
Em sintonia com o que Ismail Xavier indica ser indispensável para a boa crítica - a intuição e a sensibilidade -, os artigos desta edição começam com a análise de Kleber Mendonça Filho sobre Cinema, Aspirinas e Urubus, um festejado mergulho ao nordeste dos anos 40. Em seguida, Samuel Paiva assina artigo sobre o premiado Cidade Baixa. Marcus Mello entra de cabeça no bueiro de Bendito Fruto e Fernando Mascarello trata do regionalismo em Meu Tio Matou um Cara. No bloco de filmes internacionais, a revista traz a análise a quatro mãos do filme da argentina Lucrecia Martel, A Menina Santa, em artigo assinado por Eduardo Santos Mendes e Ivonete Pinto. Já Fatimarlei Lunardelli escreve sobre O Jardineiro Fiel, incursão elogiada do brasileiro Fernando Meirelles em uma grande produção internacional. De Montreal, Milton do Prado manda sua visão do canadense David Cronenberg e seu último filme, Marcas da Violência. Na seqüência, Fabiano de Souza esquadrinha o americano Jim Jarmusch e seu Flores Partidas. Numa minuciosa análise, Flávio Mainieri expõe o processo de adaptação em Leon Hirszman, enfocando os filmes A Falecida e São Bernardo. E, por último, Nelson Diniz fala do peso de carregar no sobrenome a marca registrada de "ator gaúcho".

Capa: Flávio Wild - Foto: Maria Alché, em A Menina Santa, de Lucrecia Martel
O que: Lançamento da revista Teorema-Crítica de Cinema 8
Quanto: R$ 8,00
Quando: Dia 12, sábado, a partir das 19h
Onde: Muffuletta Café (República, 657 ˆ Fone: 51 32241524 ˆ Porto Alegre)
Escrito por Milton do Prado às 20h17
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The terminator
Com dois dias de atraso, mas antes tarde do que nunca: o exterminador-mor tem mais um feito para seu currículo de escroto conservador após ter negado sua clemência a Stanley Williams. Como governador da California, Arno era o único com tais poderes. Como símbolo máximo do brutamontismo reacionário, ele nunca poderia ter perdoado alguém que, afinal de contas, já tinha matado quatro pessoas. Então é bala, ou melhor, injeção nele! Enquanto isso, no mesmo dia, a mídia dava a notícia que o Pentágono não tem previsões de retirada do Iraque, enquanto mostrava lá o bilan de não sei quantos mil soldados mortos.
Há quem diga que uma coisa não tem nada a ver com a outra. E que o cinema não tem nada a ver com isso. Então tá.
Escrito por Milton do Prado às 20h00
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No cinema com o Guto
Que coisa mais chatinha esse Chicken Little, hein? Imagens rápidas demais, piadas (mal) requentadas, alguns personagens sem graça, referências para adultos extremamente irritantes, trama desconjunturada (o que interessa entra bem mais tarde no filme). A cada dia acho pior. Das sessões que tenho visto com meu filho, fico com Wallace & Gromit in The Curse of the Were-Rabbit, que, se não é grande coisa, pelo menos tem personalidade, bons personagens e tiradas visuais de primeira. Acho que o Guto concorda comigo.
Cotação do Guto:
**** Guto fica vidrado o tempo todo e não pára de comentar o filme durante uma semana *** Guto fica vidrado o tempo todo e não pára de comentar o filme naquele dia ** Guto fica vidrado e faz um comentário para sua mãe quando chega em casa * Guto presta atenção, fala um pouco, presta atenção de novo, pergunta outra coisa e nem comenta o filme depois ø Guto dorme
Chicken Litte * Wallace & Gromit in The Curse of the Were-Rabbit **
Escrito por Milton do Prado às 16h34
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Baú da memória
Quando eu era criança vi um filme na TV que me marcou bastante. Contava a história de umas crianças num colégio londrino, principalmente a de um menino rebelde, de um outro tímido que se transforma em seu amigo e da garota por quem esse último vai se apaixonar. O amor é recíproco e eles vão enfrentar pais e escola para se casarem num final apoteótico. Passei boa pare da minha vida sem saber que filme era esse, somente com sua lembrança, que exerceu tanta influência em mim a ponto de me deixar um pouco idiota quando o assunto meninas surgia na minha vida. Não à toa, com 11 anos, me apaixonei por uma menina que era amiga da minha prima. Ela era linda.
Em 1997, já morando em Porto Alegre, fui passar um fim-de-semana em Passo Fundo, pois minha mulher, na época namorada, iria ser júri num festival de teatro. Fiz questão de visitar a cidade na qual morei entre 77 e 79 e que de certa forma foi responsável pelo meu retorno ao sul anos depois. No quarto de hotel, depois do banho, enquanto me vestia para ir encontrar a Suzi, liguei a TV e estava passando o tal do filme. Fiquei atônito, até porque sempre associei esse filme à época que morei em Passo Fundo. Só que estava atrasadíssimo e não consegui vê-lo até o fim, ou até o momento em que as letrinhas da TV Guaíba iriam identificá-lo.
Anos atrás (o Carlão adora esse cacófato), comprei um livrinho da Folha em que algumas pessoas indicavam 10 filmes que levariam para uma ilha. Entre os opinadores estava o Bernardo Carvalho que, junto ao Último Tango em Paris, indicava o filme Melody (1971). Poucas linhas foram suficientes para eu identificar meu cult movie infantil, e a presença dele servia apenas para Bernardo falar da decepção em rever o Último Tango e da convicção em nunca rever Melody. Ele não queria quebrar o encanto.
Bem, eu não sou o Bernardo de Carvalho e sou meio obsessivo. Descobri então que o título brasileiro do filme era Quando Brota o Amor, que ele tinha produção do David Puttnam e do David Hemmings (ator de Blow-up e Profondo Rosso), roteiro do Alan Parker, fotografia de Peter Suschitzky (que viria a ser o fotógrafo preferido de Cronenberg) e música dos Bee Gees. Foi dirigido por um tal de Waris Hussein, que praticamente só fez filmes para TV depois desse. Tamanha salada me fez perguntar se o Bernardo não tinha razão.
A TV Guaíba não tinha registro do filme que, por alguma questão legal, só tinha saído em VHS num lançamento semi-obscuro na Inglaterra e em laserdisc no Japão (o filme foi um grande sucesso nesses dois países e na Argentina!!!). Aqui em Montreal, procurei, procurei e não encontrei. Agora, graças à Santa Ebay e à cópia pirata coreana de um DVD japonês (mas que oferece também legendas em chinês), eu pude finalmente rever Melody (que também é conhecido por Swalk, não me perguntem por quê).
 Eu aos 11 anos e a amiga da minha prima. Aliás, Mark Lester e Tracy Hyde.
Enfim, o filme não é mesmo essas coisas todas. Tem seqüências "de montagem" intermináveis, talvez porque a música dos Bee Gees tenha custado caro, e tem cenas filmadas no automático. Mas tem também outras cenas de decupagem surpreendente, um final que é uma espécie de If.. para púberes (hey, kids, leave the kids alone, insistiria Alan Parker uma década mais tarde) e um trio de atores mirins fantástico. Jack Wild, o melhor ator de todos, tinha uma cara rebelde ótima. Mark Lester, que tinha sido o Oliver Twist de Carol Reed, é de uma expressão melancólica fortíssima. E Tracy Hyde, enfim, é a menina por quem você se apaixona quando tem 11 anos - e ela tem pelo menos uma ótima cena, quando chora quando não entende "por que não se pode ficar mais tempo com quem a gente quer ficar?". Isso parece música dos Smiths.
Não fiquei decepcionado, até porque a Passo Fundo que revi também era bem mais feia do que a de minha memória e porque aquela amiga da minha prima provavelmente hoje deve estar cheia de filhos, sem graça e triste.
Escrito por Milton do Prado às 00h46
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