O Olho de Hochelaga


Campeonato francês de cinema fresco


François Ozon 7 X 6 Patrice Chéreau

Tem dois cineastas franceses atuantes que não me convencem muito, mas eu continuo dando uma chance a eles.

François Ozon talvez tenha feito seu melhor filme com Le Temps qui reste, embora a crítica em geral não concorde comigo. Um dos problemas do filme é que a história do jovem que sabe que vai morrer em breve (aqui, de um tumor no cérebro) me lembrou Noites Felinas, que, se não é obra-prima, é muito mais ousado e impactante. Pois mesmo com essa situação-limite Ozon não esquece de nos lembrar sua forte tendência ao novelão - adulto, "refinado", mas novelão, o que faz com que, para mim, ele pareça às vezes um primo francês do Gilberto Braga. Então, apesar da tour de force do ator, de uma impressionante cena de sexo homossexual (não me lembro de ter visto nada parecido no cinema mais "sério"), da angústia muito bem filmada e dos embates dramáticos meio claustrofóbicos, o diretor se lembra que tem que colocar uma frescura, com uma subtrama inverossímil, melodramática e indesejada. Vale a pena ver Jeanne Moreau bem velhinha (seu personagem é ótimo e algumas falas tiram bastante sarro do fato) e o belo plano final.

Já com Patrice Chéreau me sinto até injusto de comentar mais, pois não conheço muitos seus filmes. Mas também me parece da linha do viceral-chique tão comum no cinema francês recente, embora ache Rainha Margot um filme admirável. Enfim, Gabrielle tem muitos pontos positivos, muitos fatores que me fazem admirar o filme, principalmente a unidade dramática conseguida entre a imagem (fotografia magistral, por sinal) e a dupla de atores (Isabelle Huppert matando a pau como de costume e um Pascal Greggory impressionante). Os diálogos (desconfio que importados diretamente da novela de Joseph Conrad) são fodões. Mas o tratamento "ousado" dado à narrativa (cenas em P/B e cores, congelamento de imagens, falas escritas sobrepostas), se impressiona no início, acaba causando somente desconfiança depois de um tempo. E a pompa de um cinema "de arte" (detesto o termo e detesto quando os críticos colocam aspas criticando o termo, mas aqui é inevitável, me parece) parece se sobrepor à classe. Para ir de exercício proustiano elegante a filme para as senhoras do "Cine Guion", Patrice Chéreau parece demonstrar que é preciso só um passo. Me parece um primo "rebelde" de James Ivory.

Le Temps qui reste **

Gabrielle *



Escrito por Milton do Prado às 11h00
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Links mil


Atualizei o link para O Komentarista, que desistiu do UolBlog. Finalmente coloquei um link para Kino Crazy, o blog de Sergio Andrade, que acompanho já há bastante tempo. Também acrescentei o Estranho Encontro, ótimo blog de Andréa Ormond sobre cinema brasileiro. Tem também um link para o Cinequanon, que está no ar desde agosto e é uma revista eletrônica de cinema das mais interessantes. Por fim, o Internet Archive, que é uma bagunça dos diabos, mas que vale a pena principalmente pelos filmes antigões.



Escrito por Milton do Prado às 09h40
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Campeonato canadense de Cinema no gelo


Cronenberg 10 X 6 Egoyan

Os dois cineastas canadenses - vivos - que mais aprecio atualmente chegam quase ao mesmo tempo nas telas daqui, dando-me razões para sair de casa mais animado. Na mesma semana, tasco os dois.

Primeiro, Where the Truth Lies. Atom Egoyan era uma referência entusiasmada na minha cabeça, no final dos anos 90. Depois de Exotica e Doce Amanhã, ter contato com seus longas anteriores era pirar na narrativa labiríntica do sujeito que usava roteiro como montagem, vice-versa, e os dois como construção de um cinema extremamente preocupado com a imagem, mas uma imagem liberada de preconceitos de todos os tipos e vista no que ela tinha de puro - ou melhor, na busca do que ela tinha de puro. Para mim, é esse o final de Exotica, por exemplo, ainda seu melhor filme. Felicia's Jorney já incomodava um pouco na repetição dos temas, talvez diluídos. Nunca vi Ararat, seu filme anterior, malhado por quase todos.


- E aí, gata, a gente vai te mostrar onde a verdade mora.

Enfim, teríamos até alguns motivos para pensar que Egoyan voltaria com a carga toda. A história de uma morte misteriosa, que envolvia uma dupla famosa de comediantes, separados definitivamente depois do incidente, com boa dose de sexo e drogas, mas também de programas de caridade a favor de crianças com poliomielite... porra, isso dava caldo! E o melhor do filme aproveita isso muito bem, em pelo menos três cenas fantásticas, que valem a ida ao cinema: 1- num show beneficente num hospital, uma adolecente para lá de sexy canta para as criancinhas (a música é conhecida, final dos anos 60, quando o Sergio Alpendre ver o filme, ele me diz qual é - talvez seja Jefferson Airplane) .2- A personagem principal é envolvida numa cena de sexo muito boa e psicodéilica. 3- No ápice da apresentação beneficente, os comediantes choram um para o outro por saberem que não vão mais continuar juntos. Essa última cena é quase uma síntese de certas obsessões de Egoyan: o choro pelas crianças com polio, vendido como verdadeiro, é na verdade falso, pois eles estão chorando por outro motivo, mas visto de perto o choro é mais autêntico do que antes. Visto por uma criança, isso vai marcar toda a sua vida.

Pois é no personagem principal do filme, a repórter que quer descobrir o mistério por trás da vida dos seus dois ídolos, que reside um dos grandes problemas. Enquanto que Kevien Bacon e Colin Firth matam a pau no filme, Alison Lohman não tem estofo suficiente para um personagem tão ambicioso e tem pelo menos uma cena que beira o ridículo. E, perigo dos perigos, o filme sucumbe ao off explicativo mais descarado - artifício que, apesar de bem escrito dramatica e criativamente, não parecia fazer falta aos outros filmes do diretor. Aliás, acho que boa parte da fascinação de Exotica ou Speaking Parts vinha justamente do mistério e do quebra-cabeças construído pelas imagens e sons muitas vezes dissonantes. Apesar de justificado pelo argumento, o off aqui sobra. E evidentemente Egoyan quis ser mais palatável, o que, a princípio, não seria exatamente um problema. Mas ver uma cena no início do filme com a clássica legenda do tipo MIAMI, 1972, não dá uma impressão muito boa. Por fim, o mistério dos filmes de Egoyan sempre estiveram escondidos atrás de traumas profundos, inocências perdidas, preconceitos velados etc. Aqui, ele está acompanhado de um mistério policial que, no final das contas, se revela bem banal.

Já Cronenberg parecia, a princípio, trilhar caminhos diferentes do usual. Nada de metamorfoses corporais, nada de psicoses criando outras realidades. Bem, para além de toda forçação de barra possível, esses temas estão lá, discretos, adormecidos, para serem apreciados depois de sair do cinema. A History of Violence é, possivelmente, um dos melhores filmes do diretor, prova de seu talento na construção de personagens, situações e imagens inesquecíveis: Viggo Mortensen, ferido, lavando-se no lago, quase ao final do filme, é uma belíssima cena. Filme "de encomenda", é mais umaa prova que, em cinema, é possível contrabandiar idéias próprias em projetos aparentemente impessoais, como o bom cinema americano permitia, mas parece andar esquecido de fazer.

E nesses tempos em que recebo por dia várias bravatas travestidas de argumento, tanto pelo SIM quanto pelo NÃO (essas últimas mais ridículas em número e grau, sem dúvida) no referendo do desarmamento, fico pensando se A History of Violence não seria um filme para se passar em debates do gênero, para ir além de toda e qualquer idéia simplista. Não, não seria uma boa idéia.


- Eu voto pelo NÃO, quer dizer, pelo SIM, ou melhor pelo NÃO, votando SIM...

Só sei que saí do cinema em estado de graça, por ver um filme extremamente popular no seu argumento e sua narrativa linear, aparentemente simples nas suas idéias, mas estranhíssimo e assustador em seus pequenos detalhes - arrisco a dizer que mais assustador que outros filmes de gênero do diretor. A idéia de que não conhecemos verdadeiramente quem está ao nosso lado e que a cadeia da violência é interminável e parece quase natural uma vez iniciada é essencial na bela defesa do livre arbítrio que o filme faz. Para embalar - nos dois sentidos - esse pesadelo, uma composição de imagem que nos remete ao melhor dos anos 70, mas devidamente atualizada.

Soube que o filme vai se chamar no Brasil Marcas da Violência. Uma pena, pois a sutileza do título original, só percebida após a sessão, é perdida

Where the truth lies *

A history of violence ****



Escrito por Milton do Prado às 09h36
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Festival de cinema fantástico


O pessoal do Clube de Cinema de Porto Alegre teve a ótima idéia de criar o 1º Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre, indo de encontro a todas as dificuldades possíveis(entre elas, achar cópias em películas dos filmes). Começa dia 18 e vai até 23 de outubro e a programação completa pode ser achada no site do festival. De quebra, ainda programaram o curta que dirigi em 99 com Amabile Rocha, O Velho do Saco (antes do The Fog, do Carpenter!!!!!).

Só desejo boa sorte para esse pessoal e que o evento dê muito certo.


Escrito por Milton do Prado às 22h44
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Quem tá sem tempo...


... copia a sugestão dos outros.

O Renado do RD B Side deu a dica: Film, o curta escrito por Samuel Beckett e estrelado por Buster Keaton, está disponível para download na Ubuweb. Aqui está o link. Para download, clique com o botão direito etc.


O Fernando Veríssimo enviou para uma lista o link abaixo:

http://waxy.org/random/video/shining_redux.mov

que é a prova final de que O ILUMINADO é uma comédia familiar.


Escrito por Milton do Prado às 17h59
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