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Cine Imperfeito do Romero
Com um pouco de atraso: já está no ar desde a semana passada a Cine Imperfeito Especial George A. Romero. Vale a pena ler e dá vontade de ir correndo atrás dos filmes do cara. Tem um texto meu sobre o Land of the Dead (que é o que eu tinha escrito aqui no blogue, revisto e ampliado). Boa leitura a todos.
Escrito por Milton do Prado às 16h28
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Sin City
Não chega a ser uma decepção, porque talvez nunca tenha esperado grande coisa mesmo. Desconfio muito desse tipo de adaptação, onde a transposição extremamente respeitosa parece ser a regra. Mas, levando-se em consideração que já fui um leitor dos quadrinhos de Frank Miller e que achava o primeiro volume de Sin City muito bom, esperava um pouco mais. Só que Robert Rodriguez se mostra mais uma vez um diretor maneta, um adolescente perdido numa Hollywood tão complexa que permite que ele pose de rebelde e autor (afinal, ele dirige, escreve, monta etc), o amigo querido, mas menos talentoso, de Tarantino.
Vamos tentar falar um pouco do filme desconectados dos quadrinhos. Estruturalmente, é um semi-Pulp Fiction, no cruzamento de três histórias, no prólogo que volta depois, no trama "circular" (estou aqui sendo irônico, pois nem em Pulp Fiction ela não era circular coisa nenhuma), na sua violência estilizada - que obviamente acompanha o formato homenageado: ao invés dos livros policiais baratos, os quadrinhos.
Talvez os maiores problemas de Sin City partam da desonestidade dessa postura. Se Pulp Fiction homenageava uma literatura vagabunda, aqui é a HQ de ponta. E toda crítica ao filme acaba ricocheteando no escudo de Frank Miller, autor de HQ renomado, reverenciado, quase incontestável, na visão dos fãs (e, vamos combinar, de Robert Rodriguez).
Então há uma reverência total a tudo que pode funcionar nos quadrinhos, como se isso bastasse. Mas e o cinema? Em termos cinematográficos, Sin City é um admirável trabalho de direção de arte (de resto, recriação do visual dos quadrinhos), com três histórias amontoadas sem desenvolvimento dramático suficiente (a que é mais feliz é a do Mickey Rourke, que aliás está muito bem), um off vagabundo e um tratamento, no final das contas, extremamente pudico. Pode-se até defender o filme falando que a opção é a estilização caricatural mesmo, já que o próprio preto e branco gráfico chama para isso, mas o fato é que falta sin nesta city. Os malvados são tão malvados que não parecem malvados, as dançarinas de boate mal aparecem, pois os planos são rápidos, o beijo apaixonado não tem nem um pingo de tesão. Há um plano que para mim ilustra muito o que acho do filme, quando as prostitutas, do alto de um prédio, cravam os bandidões de bala. Um bando de mulheres lindas e gostosas, quase sem roupa, mostrado sem o menor sex-appeal, atirando em poses ridículas do pior editorial de moda violence chic, pegando em uma metralhadora com medo de quebrar as unhas.
Para mim é esse o problema de muitos filmes do Rodriguez: há muita pose de rebelde, mas é só reciclagem de rebeldia que já foi filtrada e decantada pelo pior cinemão, adolescente no pior sentido da palavra. Seus melhores filmes continuam sendo El Mariachi, o episódio do Four Rooms e o primeiro Spy Kids. Assumindo a vagabundagem e o infantilismo, Rodriguez consegue render alguma coisa.
cotação: *
Escrito por Milton do Prado às 01h28
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A liga e os blogues
O Chico Fireman, do blogue Filmes do Chico, criou há mais de um ano a Liga dos Blogues Cinematográficos, que publicou recentemente a lista dos melhores filmes do primeiro semestre de 2005 (à qual dei minha primeira contribuição). De Salvador para o mundo, um apaixonado e obstinado por cinema.
O Era Uma Vez na Paraíba de José Roberto não posta muito, mas quando posta, mata a pau. E é muito engraçado.
Um que faz tempo que deveria ter colocado por aqui: Cinema Cuspido e Escarrado, do Marcelo V. Ele também não é mestre na atualização constante, mas suas análises em blocos são bem boas.
Escrito por Milton do Prado às 17h08
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Alguns filminhos do Oriente
Entre poucas sessões do Fantasia que consegui ir, sessões normais de filmes em cartaz e idas à locadora, cá estão alguns filmes do outro lado do mundo que vi nos últimos tempos:

Shijie (The World - Zhang Ke Jia, 2004) O parque temático chinês que reproduz as principais "paisagens" do mundo inteiro (Torre Eiffeil, World Trade Center, pirâmides e por aí vai) é o principal cenário desse poderoso drama que acompanha o cotidiano e as paixões de dois empregados, um guarda e uma "atriz" do lugar. Filme fortíssimo, que revela uma faceta desconhecida - urbana, falsamente cosmopolita - de uma China que entra de forma desajeitada no novo capitalismo. A composição dos planos, a aproximação dos personagens, o ritmo lento, as passagens inusitadas com o celular como leitmotiv, tudo leva a nos fazer novas perguntas sobre novos processos de industrialização e desumanização que isso acarreta. Para um tema antigo, um olhar novo. ***
Izo (Takashi Miike, 2004) O tal do enfant terrible do cinema japonês resolveu pirar e fazer um filme sobre o espírito da violência. Izo é um guerreiro do século passado, mas também um soldado da segunda guerra, ou qualquer um outro que esteja imbuído do espírito de vingança. Nessa sede desenfreada e irracional, ele mata a todos que passam pela sua frente: inimigos, amigos, sua mãe, outros espíritos guerreiros, poderosos etc. Ele morre e renasce. Parece sem pé-nem-cabeça? E é mesmo. Não se pode negar que Miike fez o filme que quis, mas é difícil não pensar que, na sua tentativa de retratar a violência de forma experimental e poética, ele se aproxima da pior caricatura que se tem da espiritualidade oriental. Seu delírio é ingênuo, kitsch e até mesmo conformista. Palmas pela ousadia, mas o filme é uma merda. ø
Cha no aji (A Taste of Tea - Katsuhito Ishii, 2004) Sensação no Festival de Cannes, é um poético e envolvente filme sobre uma família no interior do Japão. O filho tímido apaixonado pela garota da escola (algo como um Charlie Brown de olhos puxados); a menina mais nova que brinca com o avô, uma figura meio louca que faz poses para a mãe, que faz desenhos animados de luta; o pai, médico que aplica hipnose com os pacientes; e o tio, um mixador que perdeu seu antigo amor para outro cara. O tom é de comédia e há realmente seqüências ótimas, como a sessão de fotos dos heróis no metrô e os jogos entre a menina e o avô, que fazem o que o que os japoneses sabem melhor no cinema: elipses inusitadas, utilização sofisticadíssima do silêncio - e do barulho -, as composições geometricamente impressionantes. Mas o filme não chega ao nível de um As Coisas Simples da Vida ou mesmo do The World, pois sua delicadeza tem também muito de concessão previsível e seus delírio visuais acabam cansando um pouco. Contribui para isso os 143 minutos de filme. **
Karisuma (Charisma - Kiyoshi Kurosawa, 1999) Primeiro filme do badalado diretor que vi, Carisma me deixou impressionado e um pouco decepcionado ao mesmo tempo. Impressionado com a preciosidade das imagens que o japonês consegue, com a estranhíssima narrativa do filme, com seu clima de pesadelo naturalista. Mas acho que o tema, que faz do filme uma espécie de thriller ecológico (a rigor, um filme de zumbis onde o zumbi é uma árvore - sim, sempre parada!), é sua vantagem e seu defeito. Pois, se através da estranheza da história, Kurosawa constrói um clima absurdo, com personagens à beira da loucura, parece e também que lá pelas tantas ele não sabe para onde ir - o final, por exemplo, é fraco. Ainda assim, um filme a se ver, de um cineasta a se descobrir. **
Ju-on: The Grudge (Takashi Shimizu, 2003) Do mesmo diretor só tinha visto, ano passado, a Marebito, frustrada tentativa de criar um clima à la Lovecraft na Tóquio dos dias atuais. Só que o que em Lovecraft é aproveitado para a própria narrativa (a constante enunciação de um terror que deixou traços, mas demora a aparecer), no cinema do século 21 é patético. Resolvi arriscar e assistir a esse que é a refilmagem de um vídeo do mesmo diretor, que já fez uma continuação para cada formato e também sua refilmagem americana (e prepara sua continuação). Sinceramente, não vale muita coisa. Há uma boa construção de clima no início, uma tentativa (malfadada) de se criar uma narrativa não-linear, mas a bem da verdade o filme não tem o que falar e apela para todo tipo de susto e clichê (auto-) reciclado. Uma bobagem, que não faz jus à fama, nem ao talento de novos diretores japoneses. *
Escrito por Milton do Prado às 00h27
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a homenagem ao Carlão no Festival de Santa Maria
Quando Luiz Alberto Cassol, organizador do Festival de Vídeo e Cinema de Santa Maria (que há quatro anos vem fazendo um importante papel na formação de público, na reflexão e na produção audiovisual da cidade), me perguntou se eu queria escrever um texto para o homenageado deste ano, Carlos Reichenbach, hesitei durante alguns minutos por uma questão simples: estava sem tempo. Aceitei, impondo-me uma condição: aproveitar uma parte de um texto anterior que eu tinha escrito e acrescentar alguns detalhes que dariam um tom mais pessoal. Gostei do resultado. Passsado o festival, hesitei por alguns dias em pedir para o Cassol para colocar o texto no blog. O Carlão foi mais rápido. Quem quiser dar uma olhada, acesse o Olhos Livres.
Escrito por Milton do Prado às 21h29
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em terra de mortos, quem faz um filme tá vivo!
Não sou exatamente um conhecedor dos filmes de George Romero. Gosto muito do Night of The Living Dead, um excelente exemplo de como aproveitar o baixo orçamento (no caso, baixíssimo) em favor do filme, uma ótima maneira de aproveitar os clichês para contrabandear várias idéias que vão além do gênero (lição que o John Carpenter vai seguir bem direitinho depois). Não vi o cultuado Dawn of The Dead, mas achei o Day of The Dead bem ruinzinho, devagar em vários sentidos, sem saber muito o que dizer (ou pior, repetindo o que era mais implícito no primeiro filme, já que para mim o comentário "militarista" não funciona), com cenas de gore banais. Já Monkey Shines, cujo final todos dizem que foi imposição do estúdio, eu acho um bom filme. Ah, e tem também o Dois Olhos Satânicos, do qual prefiro o episódio do Argento. Não vi filmes muito bem falados como Martin ou Knightriders.
Ou seja, estou longe de ser considerado um fã do cara.

Mas ontem comecei a me inclinar nessa direção. Não sei o que os "fãs" vão pensar dele, mas eu achei Land of the Dead MUITO BOM. Vemos um filme de horror clássico, como domínio das regras do gênero, mas ainda assim surpreendente. E, embora o filme felizmente não siga a tendência atual de picotar ao máximo as cenas de ação (sinto muito, os caras não sabem nem mais onde cortar os planos!), dá pra perceber que o Romero melhorou bastante na condução (e conseguiu um montador melhor para) das cenas de ação, mesmo que algumas delas ainda entreguem um certo desajeitamento old school do velhinho (meu companheiro de sessão, o André Kapel, chegou a cogitar que algumas cenas não tenham sido dirigidas por Romero, he he he). Voltamos a nos lembrar como se faz humor negro sem parecer idiota ou soar paródico - aqui, o humor faz parte da visão do filme e, mesmo que se admita que às vezes ele é direto demais, ele é sempre feito com inteligência. Um exemplo disso está nos diálogos do personagem de Dennis Hopper, que está mais cool que nunca no papel de um capitalista filho da puta que manda na cidade sitiada. Aliás, a galeria de personagens e seus atores é outra grande bola dentro do filme. John Leguizamo, ator particulamente insuportável, está muito bem. O "herói", feito por um ator desconhecido para mim, segura bem a onda. Asia Argento poderia aparecer mais, é verdade, mas em geral os personagens secundários são ótimos.
Estão lá todas as leituras políticos-sociais, desta vez muito bem atualizadas, mas o que salta aos olhos são as inúmeras boas cenas do filme: o padre-sem-cabeça, a lanterna no porão infestado, a travessia do rio (fantástica!). Um filme sombrio, direto, cujo humor não serve como alívio fácil, mas como um comentário necessário para um cineasta que parece querer dizer que o mundo está pior, a podridão está mais espalhada, mas ainda vale a pena acreditar no pouco que resta. Uma espécie de humanista do apocalipse,se é que a gente pode dizer assim.
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Escrito por Milton do Prado às 11h52
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Robert Lepage
Um dos nomes mais conhecidos do Quebec é o de Robert Lepage, famoso pela utilização inteligente da tecnologia em suas peças (é o que diz o senso comum, eu não conheço).Pois o cara já dirigiu cinco filmes, todos muito bem cotados por aqui, inclusive o La Face Cachée de la Lune , 2003, em que faz os dois personagens principais, irmãos completamente diferentes que, com dificuldade, voltam a ter algum contato depois da morte da mãe. O principal deles é um perdedor total, enquanto o outro é rico, famoso etc. Ruim o filme não é, mas peca por tentar ser poético a cada instante, nos diálogos e, principalmente, nas imagens. Mas falta dramaturgia e, principalmente, uma preocupação com a construção da imagem que vá além do "bonito" no pior sentido da palavra, deixando o personagem cair quase no patético.

Já Le Confessionnal, 1995,é justamente o contrário. Falta a ele um maior escancaramento do personagem principal, que acaba sendo o mais fraco do filme: um pintor que volta à Quebec para o enterro do pai e quer resolver um antigo mistério sobre a vida do seu irmão. A história dos dois está intimamente ligada às filmagens de I Confess, que Hitchcock fez na cidade, e tem personagens fantásticos como o irmão meio looser (num sentindo bem mais marginal do que o do outro filme), o pároco jovem da cidade, seus pais, a tia suicida, o próprio Hitch e equipe (entre elas uma produtora feita pela Kristin Scott Thomas). Mas o personagem de Lothaire Bluteau, que é um bom ator, merecia mais estofo. Algumas seqüências soam meio amadoras, como as das filmagens, mas em geral o filme é muito mais cinema que La Face Cachée de la Lune. No final das contas, Le Confessionnal é aquele tipo de filme bom cheio de problemas, que poderia ser muito bom, um 7,5 certeiro; já o outro, redondinho, com sua imagem aparentemente mais bem-cuidada mas sem profundidade (em qualquer sentido) é um típico filme nota 6.
La Face Cachée de la Lune * Le Confessionnal **
Escrito por Milton do Prado às 18h47
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Nunca fui santa
Para marcar o retorno vou comentar brevemente sobre o melhor filme que vi nos últimos meses, talvez nesse ano. Nunca pensei que a Argentina estaria me dando tantas alegrias em tão pouco tempo, mas o fato é que La Niña Santa, de Lucrecia Martel, é um filme surpreendente.

Ainda não vi La Ciénaga, mas esse segundo longa da diretora é perturbador na calma em que ele retrata uma tensão latente e crescente, na verdade que imprime aos personagens. A história se passa toda numa cidade minúscula (fictícia, mas, sabemos todos, bem real) onde um médico, que está participando de um congresso, aproxima-se de uma adolescente estudante de religião e de sua mãe, que organiza o tal do congresso. A ênfase poderia muito bem descambar para o discurso pseudo-crítico tão caro a alguns cineastas "independentes" oficiais americanos, que adoram mostra "quão sórdida é aquela vida de subúrbio pacato" bla bla bla (me vem à cabeça o tal do Todd Solondz, mas existem piores), mas que no fundo e na forma se mostra vazio, fácil e egocêntrico. Martel prefere adotar um ponto de vista mais próximo dos seus personagens, tentando a cada passo ficar mais íntima deles, mas evitando todo e qualquer psicologismo - o que, num filme que toca em assuntos como pedofilia, convenhamos que é muito difícil. Interessa mais a ela a investigação daquele universo, dos desejos dos personagens (a El Deseo de Almodovar é produtora do filme) e na maneira como cada um dá vazão a esses desejos num universo real sufocante. Nessa terra de desejos proibidos uma faísca pode causar um incêndio. Há para mim uma cena emblemática do filme, quando o grupo de meninas vai ver o local de um suposto acidente "fantástico" na estrada e saem gritando porque uma delas disse ter visto algo. Elas riem, mas estão assustadas; brincam, mas quase são atropeladas; estão numa espécie de êxtase, que sofre um baque quando ouvimos tiros, que depois se mostram não serem nada daquilo que pensamos que era. A atriz que faz o papel principal, da garota que questiona os dogmas, mas ainda crê possuir uma missão sagrada, de salvação da alma de seu suposto "agressor", é um grande achado de Martel. E admitamos: essa argentina enquadra os atores como poucos hoje em dia. O mundo mostrado em La Niña Santa tem muito mais camadas e detalhes, pois quase tudo não é o que parece ser à primeira vista, mas tudo está muito, muito longe do sensacionalismo ou do maneirismo.O que surpreende mais em no filme é que, quanto mais ele se demonstra estranho, mais próximo do real ele fica.
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Uma dica: o site do filme é ótimo: http://www.laninasanta.com/
Escrito por Milton do Prado às 17h24
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