 |
|
|
tá no olho de quem vê

Escrito por Milton do Prado às 16h49
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Oldboy ou ninguém mais posta nesta bosta?
Bem, tá foda o corre-corre, mas vamo lá que eu estou com saudades.
Li a crítica do Inácio Araújo para o Oldboy na Folha de São Paulo (merci, Ailton), já tendo inclusive me manifestado sobre a mesma com alguns amigos. O melhor crítico do Brasil, mesmo quando se equivoca, levanta questões bastante pertinentes (como a tendência - segundo ele - de uma parte de filmes atuais em considerar o corpo como lugar exclusivo do sofrimento e não mais do prazer). Mas acho que o Inácio realmente não enxergou algumas qualidades evidentes do filme.
 - Eu te conheço, Inácio Araújo!!!
Saí do cinema empolgadíssimo quando vi Oldboy e demorei um pouco a digerir o filme. A competência narrativa, muito longe de ser fácil, é talvez a primeira coisa que impressiona. Para mim, é a influência de DePalma mais bem-sucedida que vi na vida (não exatamente em termos temáticos, mas de câmera). Tem algumas das elipses mais inteligentes que vi nos últimos tempos, um ator fantástico e um dos melhores planos (seqüência?), o que o cara bate em 20 capangas no corredor. No final do filme, há uma das cenas de auto-humilhação mais convincentes e pesadas que já vi, o que torna a conseqüente automutilação perfeitamente justificável em termos dramáticos.
E se é uma bobagem pensar o filme em termos de "novidade" absoluta, é também estranho negar a sua capacidade de trabalhar clichês de gênero explorando novas possibilidades.
Aliás, eu estou longe de ser um especialista nesse novo cinema coreano, mas os dois filmes que vi recentemente, Oldboy e A Tale of Two Sisters, têm alguns (estimulantes) pontos em comum:
- ambos são exemplos de cinema de gênero, bebem na fonte direta das referências e "regras" particulares de cada um, mas vão além, sem medo do exagero (quase operístico, no caso do Oldboy).
- esse exagero é feito ao mesmo tempo com competência e ousadia narrativas, o que dá uma impressão de "equilíbrio" aparentemente paradoxal.
- como exemplo desse exagero, em ambos os filmes há uma sucessão de finais possíveis (revelações, reviravoltas, epílogos, entre outras) que, em mãos inábeis, tornaria tudo insuportável. Aliás, essa é uma das características mais insuportáveis de muito filme de gênero americano atual. Mas nos dois filmes não somente isso funciona como se torna uma das suas maiores qualidades.
- Não sou de elogiar a qualidade técnica de um filme de maneira vaga, mas os dois filmes têm um excelente padrão técnico, sem fazer no entanto com que isso subjugue a estética dos filmes, pelo contrário.
- Os dois filmes têm um puta elenco!
O curioso é que A Tale of Two Sisters, aparentemente mais bem-comportado dentro do terreno que escolheu, é para mim ainda superior. A maneira pela qual ele pula do horror sobrenatural para o horror psicológico (levada ao extremo, mas plenamente justificado, ao fim), questionando progressivamente realidade e imaginação, é para mim um exemplo de grande cinema.
Oldboy *** Chan-wook Park, 2003
Janghwa, Hongryeon (A Tale of Two Siters) **** Ji-woon Kim, 2003
Escrito por Milton do Prado às 14h46
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
4 blogues
Quatro blogues que visito com bastante frequência e que já deveria ter incluído na lista ao lado:
Anotações de um Cinéfilo - do Filipe Furtado, contracampista dono de excelente texto. Celulóide Cortado - o homem por trás do Cine Imperfeito (sim, junto com outros, eu sei), Francis Vogner, manda muito bem, apesar de ser fã do Caetano Veloso. O Komentarista - o Marco faz um dos blogues mais pessoais que conheço, em qualquer sentido, falando ou não sobre cinema. O Signo do Dragão - do contracampista Brundo Andrade, o verdadeiro franco atirador.
Escrito por Milton do Prado às 11h25
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
revisão Truffaut
A revisão é só na minha cabeça, aproveitando a falação de outros blogues, em especial as cotações do Chip Hazard. Truffaut virou pode ter virado arroz de festa de uma certa comunidade cinefilóide, mas isso não me impede de admirá-lo bastante.
Os Incompreendidos (1959) * * * * Olhar duro sobre a infância, mão leve sobre o cinema.
Atirem no Pianista (1960) * * * Brincadeira de qualidade. Filme muito divertido.
Jules et Jim (1961) * * * * Uma das belas histórias de amor do cinema.
Um Só Pecado (1964) ** Truffaut começa a olhar de perto as possibilidades doentias do amor.
Fahrenheit 451 (1966) * * * * Amor aos livros, amor à narrativa, filme vibrante, final belíssimo.
A Noiva Estava de Preto (1967) * * Não me convence muito como homenagem ao Hitchcock. Parece que a força acaba ali pela metade do filme.
Beijos Roubados (1968) * * * Quase tão bom quanto o primeiro capítulos da saga. Poesia dos pequenos gestos.
A Sereia do Mississipi (1969) * * * Um dos filmes mais incompreendidos do Truffaut. Mergulho de cabeça no amor doentio. Final belíssimo na neve.
Domicilio Conjugal (1970) * * Mais pequenos gestos e menos poesia. Mas ainda tá lá.
O Garoto Selvagem (1970) * * Filme importante, bonito, honesto. Mas é um filme de tese e isso me incomoda. Herzog iria fazer melhor.
Duas Inglesas e o Amor (1971) * * * Um dos filmes mais bonitos do Truffaut. Enquanto vários vão imitar o triângulo de Jules e Jim, ele vai em busca de outras variações.
Uma Jovem Bela Como Eu (1972) * * * Um dos meus preferidos. O amor doente visto com ironia e humor negro.
Noite Americana (1973) * * * Caiu a cada revisão que fiz. Mas ainda assim é um belo filme.
A História de Adèle H. (1975) * * Não me entrou muito essa descida ao inferno do amor doentio. Mas Adjani está o máximo.
Na Idade da Inocência (1976) * * * Um dos filmes mais bonitos já feitos sobre crianças, sem muito açucar.
O Homem Que Amava as Mulheres (1977) * * * * Um dos filmes mais bonitos já feitos sobre o homem e as mulheres, com creme, por favor.
O Amor em Fuga (1978) * Picaretagem com talento e sensibilidade, mas ainda sim uma picaretagem.
O Quarto Verde (1978) * * * Um dos filmes mais impressionantes sobre o peso e a leveza da morte.
O Último Metrô (1980) * * * Há quem deteste. Eu o acho deliciosamente irregular.
A Mulher do Lado (1981) * * * O último capítulo sobre o amor doentio.
De Repente Num Domingo (1983) * * * Belo final de carreira, um filme luminoso.
MEU TOP TEN DO TRUFFAUT:
Os Incompreendidos (1959) * * * * Jules et Jim (1961) * * * * Fahrenheit 451 (1966) * * * * O Homem Que Amava as Mulheres (1977) * * * * De Repente Num Domingo (1983) * * * Duas Inglesas e o Amor (1971) * * * Beijos Roubados (1968) * * * A Sereia do Mississipi (1969) * * * Uma Jovem Bela Como Eu (1972) * * * Na Idade da Inocência (1976) * * *
Escrito por Milton do Prado às 15h03
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Kureishi
Minha preguiça mental-lingüística me fez largar minhas primeiras leituras em francês pela metade (algumas a um terço) do caminho. Nem Jules Verne foi capaz de segurar. O jeito é apelar para a meia dúzia de livros em português que ainda restam.
Ontem terminei O Dom de Gabriel, do Hanif Kureishi. Não é tão legal e revelador quanto O Buda do Subúrbio, mas é realmente mais equilibrado, sem muitos altos e, principalmente, baixos. Perde-se em ousadia, ganha-se em unidade. Será isso o que chamam de maturidade (olho atentamente para minha pança durante alguns segundos...) ?
Parece que teve gente que reclamou do final feliz. Só que eu acho que o final não é exatamente feliz. Kureishi trabalha a melancolia (sem arroubos profundos) como poucos. Faz falta ao Stephen Frears.
Escrito por Milton do Prado às 11h10
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
algumas palavrinhas sobre A Vila
Há mais de um mês, na lista canibal holocausto, coloquei uma mensagem defendendo o filme A Vila, de M. Night Shyamalan, o qual vi somente no mês passado. O Aílton Monteiro me sugeriu adaptar o texto para o blogue. Vou aproveitar a relativa falta de tempo e fazer isso, sem mexer muito no texto. Continua meio desconjunturado, ainda mais fora do contexto da lista, mas vai assim mesmo. Ah, mais uma coisa: o texto tem muitos spoilers, logo, quem não viu o filme e se importa com a trama é melhor nem lê-lo. Até porque o começo com a defesa da cena final do filme.

Não dá para dizer que no final de A Vila, quando os mais velhos levantam-se e a personagem cega chega com a cura, há um clima heróico! Aqueles personagens levantam-se porque concordam em levar adiante a mentira, porque vêm que a mentira deles ainda poderá ser sustentada apesar (e, no caso, por causa) dos acontecimentos recentes na vila. É um final ambíguo e também sombrio.
A vila é uma comunidade fechada, e o sucesso do seu isolamento é baseado numa mentira, mas ninguém questiona a boa intenção daqueles que criaram a mentira. O filme coloca isso claramente: a intenção era que aquela comunidade ficasse protegida da violência que havia no mundo lá fora. Para proteger dessa violência, chega-se ao cúmulo de inventar um mundo e inventar uma ameaça maior que a separa do resto do mundo. Pode-se pensar nas comunidades amish, pode-se pensar nos Estados Unidos, pode-se pensar na essência do conservadorismo.
Só que tanta proteção não dá conta da natureza humana. A natureza humana tem uma verdade que extrapola qualquer tentativa de aprisioná-la.
Há no filme uma cena chave, quando, no início, a irmã da personagem cega se declara para o personagem do Joaquin Phoenix. A declaração dela é arrebatadora, grandiosa e... falsa. Não tem paixão. Porque a paixão foi abolida daquele lugar. Porque a paixão pode trazer coisas que não são permitidas na vila. Por isso o vermelho é proibido. Pois isso o William Hurt não se arrisca nem a tocar na Sigourney Weaver. Na ótica dos conservadores, não vale a pena arriscar.
Mas a questão é: não se pode NÃO arriscar.
Porque naquele mundinho pretensamente perfeito sempre vão existir os “defeituosos”. Não é à toa que toda ordem da vila vai ser ameaçada por esses “defeituosos”: o rebelde que, quase como um louco, quer sair do lugar, “sem medo”. A cega que “vê mais” do que muitos ali. O deficiente mental que vai descobrir e encarnar o disfarce. Todos eles vão ameaçar a ordem, até porque todos eles, por estarem de alguma forma apaixonados, já perderam muito do medo.
Para mim todo esse papo de necessidade de revelação final nos filmes do Shyalaman não faz muito sentido aqui (bem, já não fazia muito sentido em Sinais também). Até porque a revelação de que o monstro não existe acontece na metade do filme. A surpresa de que aquele mundo não era “de antigamente” é genial não porque é completamente imprevisível (e não é), mas porque nos remete a realidades que as metáforas vinham chamando até aquele momento (por exemplo: se pegarmos comunidades como os amish, A Vila é menos “fantástico” e mais realista ainda).
O que perturba em A Vila é que, no final, a pessoa que vai trazer a cura, a pessoa que vai pode ser responsável por fechar aquele ciclo de ameaças e dar continuidade à mentira que vinha se perpetuando, a pessoa que agora “sabe de tudo”, na verdade “não sabe de tudo”. Como ela é cega, ela não vê exatamente o mundo que há lá fora. Não conhece a ameaça que o pai disse que existe. Talvez por causa disso ela é considerada ideal para aquele papel que querem que ela venha a desempenhar.
Aceitar esses “defeitos” de personagens (e de narrativa, que seja) é o primeiro passo para aceitar a ambigüidade do filme.
No tal final comentado, quando os mais velhos se levantam, eles não são considerados heróis. O que ajuda a confundir é que eles também não são considerados VILÕES (sem trocadilhos, embora eu até me pergunte se não cabem aqui). Eles não vão ser perseguidos pelos heróis que agora sabem a verdade e querem mostrá-la para todos. Não. Eles são mostrados como representantes (metafóricos, alegóricos, até) de uma característica humana que é o conservadorismo. O filme não mostra que eles são ERRADOS. Mas, nem por isso, mostra que estão CERTOS.
O que também assusta no final de A Vila é que a mentira pode e, provavelmente, vai continuar.
Agora, o que assusta DURANTE o filme é a incrível e ousada capacidade do diretor de construir as cenas, cujos tempos, aliás, são estranhíssimos. E ninguém me tira que aquele monstro de mentira caindo naquele buraco não é uma citação direta e muito bem feita do clássico japonês Onibaba, comentado aqui há algumas semanas. Filme que, aliás, explorou como poucos o terror do desconhecido, o terror criado na tentativa de “proteger” os outros numa situação limite.
Escrito por Milton do Prado às 20h04
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
 |
| [ página principal ] [ ver mensagens anteriores ] |
|
 |


|
 |