O Olho de Hochelaga


Godard importa


Está em cartaz em algumas cidades brasileiras o último Godard, Notre Musique, que ainda não entrou em cartaz em Montréal. Tenho uma curiosidade crescente para ver esse filme, aguçada hoje por um belo artigo do Alcino Leite Neto na Folha Online, Godard sem dinheiro no Rio. Ele começa falando de uma biografia do Godard lançada há alguns meses nos Estados Unidos, atiçando nossa vontade de saber mais sobre o diretor. A leitura do artigo retifica a obrigatoriedade dessas duas peças.



Escrito por Milton do Prado às 13h39
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Terminam as filmagens de O Início do Fim e Sketches


Os relatos de filmagem da Clube Silêncio deram uma rareada, entre outros motivos, porque o Gustavo Spolidoro, nosso correspondente no Sketches, era também fotógrafo de cena do filme (além de diretor de O Início do Fim). Logo, estava sentindo na pele a pedrada das filmagens, que terminaram às cinco da madruga da sexta-feira com a equipe emendando um Van Gogh (NE: em São Paulo seria no Sujinho) até altas horas. Mesmo de ressaca, o incansável Spolidoro mandou notícias dos dois filmes no final da tarde de sexta-feira, devidamente editadas para serem apresentadas abaixo.

"No momento aguardo uma pizza da Estacione Pizzas. Aliás, graças a Karen Campos (NE: produtora de campo), além de pizzas, temos pastelinas da Pavioli, frutas da Ceasa, cartuchos de impreessora da 1001 e por aí vai. A guria é um monstro!

Sou suspeito de falar das minhas filmagens, mas foi tudo bem tranqüilo. Só no finalzinho um streszinho por causa de um trilho do travelling que balançava e o tempo ia passando e eu não conseguia fazer a cena que queria. Mas foi tudo uma beleza! O mundo literalmetne caindo na cabeça do Nilsson (Asp, ator do filme), figura rara e excelente profissional, que trouxe muito pro filme e pra compreensão do personagem. Lindo de ver.

Os viciadinhos em video-assist estavam chorando na cena da destruição e eu ajudando a balançar o travelling pra imitar a tremedeira do impacto de uma bomba. Segunda vemos o resultado. mas tô levando fé na foto do Mauro, super crua, com luzes vindas de janelas laterais. E é importante falar do Luiz (diretor de arte) e da Jana (assistente de direção), que foram tão criadores do filme quanto eu.

Ontem falávamos no Van Gogh, após o final do Sketches, que tivemos uma grande sorte (e claro, competência da Camie e Jaque (produtoras) pra escolher) na equipe. Todos ótimos profissionais, talvez por isso os dois sets foram tranquilos. Foram todos muito parceiros, tanto que a maioria fez festa depois com a gente.

Agora ao relato do Sketches. Fabiano cada vez melhor! E batendo recordes: 28 planos no primeiro dia, 34 planos no segundo e 42 no último. Claro que com o André (diretor de fotografia) dando várias sem tirar! Como dizia o Fabiano "mais uma, na conchada". Quem esteve no set dos filmes anteriores do Fabico pôde ver que ele tá afinadíssimo e tudo isso só foi possível pois ele resolveu "estrear" na decupagem. Tudo bem, foram 20 latas ao invés de 18. Vi o esforço do Fabiano em ensaiar bastante antes do ação, mas realmente, num filme que tem muuuita cobertura (isso é pra ti, Milton), não dá pra contar 3 por 1. Ah, e eras lembrado a toda hora nas filmagens. Ou quando faziam um plano a mais ou cobertura ("essa é pro Milton", diziam), ou quando não fazia ("ó o Milton no skype").

Mas o set do Sketches foi realmente uma beleza. Tudo bem que o Fabiano não "deixa" rolar nenhum ruído no set além de sua voz gutural, mas nem precisava, pois a galera era muito séria, e estavam lá as irreparáveis e maravilhosas Cami e Jaque, coordenando todas! O Fabiano era só sorrisos com os cenários do Élcio. A prisão branca, a casa vermelha e a descoberta do Hospital São Pedro, um lugar incrível, com exaustores girando ao fundo. Aliás, tanto o São Pedro quanto o Capitólio (no Início do Fim), são locações tão incríveis que chegam a parecer "construídas" como um set.

Foi legal de ver o Fabiano dialogando com os atores, ouvindo sugestões e mudando opiniões. foi legal também ver o André trazendo novos planos e enquadramentos e fazendo o Fabiano feliz com isso. Ao lado dele, Geraldo (assistente de direção) e Dudu (continuísta) controlavam tudo sem "atrapalhar" o queridão. E eu, no fundo, consegui resistir sem dar um pitaco (na verdade dei dois, mas foram pro Dudu, que repassava pro fabiano sem que ele soubesse que eram meus...hehe).

E o elenco, realmente incrível: Kike Barbosa é uma grande figura. Daqueles atores que dão gosto, pela simplicidade e dedicação. Estava sempre presente, dava opiniões, pedia ajuda e tava sempre rindo. E os personagens do Julinho Andrade, Nelson Diniz, Rodrigo Najar, Sandra Dani, Liane Venturella, Nick Noal e Chico Machado realmente foram longe. A Liane com uma naturalidade pra dar textos incrível. O Julinho, como sempre, flutuando, com seus movimentos, quase num balé à la Laranja Mecânica. O Nelson, quase corcunda, num personagem ensandecido e assustador. A Sandra encarando o pequeno Nick de forma ríspida, com seus diálogos secos e o guri lá, sem medo de xingar, de dizer palavrão ou mesmo palavras que nem sabe o significado ainda. O Najar fazendo caras e olhos de dar pena do personagem. Puro mêdo. E esse volverine chamado Chico, clone do dono da Zil Vídeo (NE: para quem não é de Porto Alegre, uma locadora folclórica da Osvaldo Aranha que afirma ter o maior acervo de filmes pornô do Brasil), gritando como louco "esse cara é um assassino!".

Irado. Realmente vem mais barulho por aí!!!

Espero não ter esquecido de nada ou ninguém.

abraços, Gus"


Escrito por Milton do Prado às 00h56
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O aviador


Oscar para mim serve basicamente para duas coisas. Primeiro, para a indústria do cinema americano se auto-louvar, em alto e bom som, para o mundo todo. Depois, para você juntar alguns amigos e, com uma quantidade mínima de bebida, fazer apostas e passar a noite tirando sarro (tentar ver o oscar sozinho e "de cara" beira o insuportável). Como se não bastasse todos os cadernos de cultura, programas de TV e os Entertainment Tonight da vida serem pautados pela Academia, vou eu aqui trocar algumas palavras sobre o principal (ou um dos) concorrente (s), The Aviator, de Martin Scorsese. Mas isso é plenamente justificável: não somente trata-se ainda de um dos diretores americanos mais interessantes em atividade, como acho que boa parte do que a gente vê nesse filme é regido pelo gosto "oscarizável".



Scorsese, a fantástica Cate Blanchett e o DiCaprio

The Aviator conta a história de Howard Hughes, diretor e produtor da Hollywood dos anos 20 aos 40, chegado a exageros e excentricidades diversas. No mais conhecido de seus delírios de produção, filmou batalhas aéreas com mais de 20 câmeras em Hell's Angels (1930), conseguindo planos impensáveis para época. Pois o homem de cinema também era aficionado por aviões e queria construir o maior avião já feito até então. O filme conta principalmente a história dessa obsessão, que faz com que o aviador passe por cima dos produtores, de suas mulheres (entre elas Katherine Hepburn pré-Spencer Tracy e Ava Gardner), de outras companhias aéreas, políticos e quem quer que ficasse no seu caminho, incluindo aí sua própria sanidade.

Pois então temos um prato cheio para uma história onde o “louco apaixonado” vai desafiar tudo que tenta impedí-lo de realizar seu sonho. E, para mostrar o “louco” em ação, Scorsese não poupa seus já conhecidos e embasbacantes movimentos de câmera – a cena da filmagem aérea é realmente fantástica, provando que, quando sabe, o diretor é virtuoso na medida. Estão lá também outras marcas de seu cinema, como a montagem sempre criativa de Thelma Schoonmaker (a melhor montadora do mundo?) – há um paralelismo perto do fim do filme que arrisco a dizer que foi construída na hora da montagem. Há também uma fotografia matadora a serviço do filme, bons atores etc.

Ou seja, mais uma vez está demonstrada a competência narrativa de Scorsese com pitadas, aqui e ali, de invenção. Sabe-se que às vezes ele escorrega e carrega ("escorrega e carrega" é ótimo!) a mão no virtuosismo, como em Casino (1996). Às vezes ele puxa o freio de mão, como é o caso aqui. O filme não é 100% convencional, mas é evidente que Scorsese está mais contido, e o resultado é mais redondo. Então temos aqui um épico pessoal, sobre um visionário (parece que realmente as loucuras de Hughes impulsionaram as pesquisas que levaram à construção dos boeings, por exemplo) bem ao gosto americano, com a participação de mitos reais, com a luta contra um inimigo maior (sua loucura real) e com Leonardo DiCaprio. Tudo leva a crer que, deixando de lado a inquietude e a ousadia de suas obras-primas, o diretor fez tudo na medida para ganhar seu oscarzinho.

Não que isso seja necessariamente negativo. A atração que esses prêmios exercem é humana, lembremos do caso de Jorge Luís Borges, que morreu lamentando nunca ter ganho o Nobel. E é perfeitamente possível realizar um filme mais quadrado e mesmo assim imprimir sua marca - sugiro a quem não conhece assistir ao documentário A Personal Journey with Martin Scorsese Through American Movie (1995), onde, entre outras coisas, Scorsese fala da categoria dos “contrabandistas” do cinema.

Mas, se com essa aproximação ao cinemão o filme ganha em coerência e coesão (salvo pequenos deslizes - há personagens que aparecem e somem, uma quase-regra das cinebiografias), ele perde em força cinematográfica. Nem adianta colocar a culpa no DiCaprio, que um dia muita gente acreditou que seria um grande ator (ele continua fazendo as mesmas caras que fazia em Gilbert Grape!), porque o que falta aqui é aquela pitada a mais de invenção que aparece nos melhores de Scorsese. Para comparar com um outro filme da dupla diretor-ator, prefiro Gangs of New York (2002), com sua narrativa atabalhoada na segunda metade, com uma Cameron Diaz histérica e deslocada, mas com a força de um clássico. Porque aqui entramos também no que o filme tem a dizer. Se em Gangs... a gente tinha a procura de um pai confundida com o sentimento de vingança, em The Aviator nós temos a história do “louco” que passa por cima de tudo e de todos (incluindo aí instituições corruptas, mostradas sempre de forma caricaturalmente previsível) para realizar seus sonhos. Confesso que ando de saco cheio deste tipo de história e acho muito mais interessante e pertinente a primeira.

Mas, o que fazer no caso de um Scorsese a não ser conferir em tela grande? Vão ficar sempre na memória a coleção de curiosidades sobre uma época mítica, a direção deslumbrante, e uma fantástica Cate Blanchett como Kate Hepburn. Não é pouco, devo dizer.


Escrito por Milton do Prado às 17h55
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Nouvelles Vagues


Recebi alguns e-mails pedindo mais dicas da charada-revelação e outros pedindo para eu colocar uma deadline. Na verdade, encerro a mesma por um motivo muito curioso. Não sei como, mas, mesmo eu dando pistas completamente vagas e ligeiramente falsas, três pessoas acertaram logo! Cristiano Trein, seguido de Moisés e Marlonn DB votaram no Chabrol e vão levar para casa a canequinha do Canadá com a folhinha de plátano. Para os dois primeiros, eu a entrego quando for para Porto Alegre da próxima vez (só Deus sabe quando); já o Marlonn eu não sei de onde é, mas daremos um jeito de entregar tão cobiçado prêmio. Et voilà:




"Mestre, é verdade que no final de L'enfer você queria...?"

Há cineastas, como Coppola, que viram fabricantes de vinho. Há outros que, como o vinho, melhoram com o tempo. Uma garrafinha de um bom Chabrol, pelo menos uma vez por semana, me ajuda a esquentar esse inverno montrealense e sugere uma revisão em vídeo dos filmes do velho mestre. Comecei com O Ciúme (L'Enfer, 1994) e o filme ainda se mostra intrigante como na primeira vez que vi. Só a cena onde o personagem principal "flagra" a mulher assistindo a um super-8 (ou seriam slides?, não lembro) com o suposto amante é uma aula de como o cinema precisa de pouco para ser forte. Tem Emmanuelle Béart, uma das mulheres mais bonitas do mundo, um viagra natural made in France. E o final do filme... bom, não vou contar, quem viu sabe do que falo.



o inferno do amor possessivo


Escrito por Milton do Prado às 00h35
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Mais das filmagens


Com certeza não é a primeira vez que um blogue publica um diário de filmagens, mas não sei se existe um que faz isso de outro país. Meio que sem querer, O Olho de Hochelaga está virando um diário das filmagens de O Início do Fim e Sketches, dois curtas da Clube Silêncio.

De qualquer forma, faço questão de publicar o texto seguinte aqui não somente pelo ineditismo da situação, mas como elogio às possibilidades dos novos meios de comunicação. Nesses momentos deixo de ser apocalíptico e viro integrado.

O fato é que, às 7h50 deste domingo, recebo um telefonema do Gustavo Spolidoro, diretor de O Início do Fim, pedindo para eu ligar o skype. Para quem não sabe, o skype é uma dessas maravilhas da internet que permitem que você fale, como se estivesse ao telefone, com qualquer pessoa em qualquer parte do mundo, pelo computador. Para mim, que estou há milhares de quilômetros do Brasil, é uma boa solução pessoal e profissional.



Nilsson Asp no papel principal de O Início do Fim


Ligado o skype, o Gus me fala de uma alteração que eles tiveram que fazer na decupagem original do filme, tipo de adaptação comum de acontecer na hora da filmagem. Obviamente não vou entrar aqui em detalhes técnicos, mas basta dizer que essa alteração acarretaria mudanças tanto na montagem como na finalização e o diretor queria trocar algumas idéias comigo, enquanto um cenário era montado. Havia dúvidas estéticas e de produção - lembro que agora somos sócios, também, ou seja, sentimos os rombos no nosso bolso.

É certo que coisas como essa sempre aconteceram e sempre foram solucionadas e que, independente da conversa comigo, eles iriam tomar uma decisão e achar a solução. Mas poder dividir essa dúvida e trocar uma idéia, independente da distância onde está o interlocutor, e pagando quase nada (só o preço da primeira ligação) é uma maravilha!

Depois de uma razoavelmente longa conversa, o Gus partiu mais tranqüilo para uma longa e complicada última diária de filmagem, e eu estava contente com o ocorrido, apesar ter sido acordado de um sono pesado e não ter conseguido voltar a dormir, numa ressaca dos diabos um dia depois de um bom trago de vinho.


Escrito por Milton do Prado às 23h27
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Guy Maddin


Uma das melhores surpresas cinematográficas que tive por essas bandas foi conhecer a filmografia desse maluco de Winnipeg, Manitoba (um estado do centro-oeste canadense que não exatamente se destaca por sua produção cultural; um fim-de-mundo, para ser mais claro). Tive sorte de pegar uma retrospectiva sua aqui na Cinémathèque Québécoise, mas já soube que a última Mostra Internacional de SP exibiu os filmes dele.

Maddin é obcecado pelos anos 20, em todas suas manifestaçãoes artísticas (pintura, música) e culturais de forma geral (história, moda), mas sua matriz principal é o cinema dessa década. Nos seus filmes é possível enxergar referências, citações e ecos do expressionismo alemão, da vanguarda russa, da vanguarda francesa, do melodrama americano etc. Mas não se trata, de forma alguma, de uma reverência cinéfila banal, daquelas que pululam até em alguns comerciais de TV. Trata-se claramente de uma obsessão artística que recicla esses signos para, em conflito com temas atuais, tentar ao mesmo tempo desmistificar e homenagear esse cinema. Para isso, Maddin acaba construindo um universo próprio, com grandes sacadas de montagem e de cenário e muito, mas muito humor, que o afasta imediatamente de qualquer possibilidade de soar pernóstico. Porque seus filmes são estranhos, alguns perturbadores, engraçados, mas muito humanos - e divertidos, eu diria!



Peguemos seu primeiro longa, Tales From The Gimli Hospital (1988), onde um pescador, internado num hospital após ser contaminado por um peixe, faz amizade com outro doente e ambos compartilham suas histórias passadas. As tramas rocambolescas se sucedem (vale dizer que mesmo essa trama principal está sendo contada por uma mulher a duas crianças cuja mãe está quase morrendo no mesmo hospital) e os personagens descobrem que eles são na verdade inimigos, apaixonados pela mesma mulher que já morreu. A partir daí a história vira quase um filme de terror, onde a comicidade sutil nunca deixa-se predominar à morbidez e ao clima doentio.

Não consegui ver três dos seus longas mais elogiados, Archangel (1990), Careful (1992) e Dracula: Pages from a Virgin's Diary (2000), mas Twilight of the Ice Nymphs (1997) foi uma decepção. Trabalhando pela primeira vez em cores, Maddin cria uma lenda cheia de referências à mitologia européia, mas o tom é mais debochado que nos outros filmes, o que atrapalha bastante, sem contar a duração excessiva. Como curiosidades, tem Shelley Duvall e a uma estrela de Montreal, Pascale Brusières.

Bons mesmos são seus dois últimos longas, Cowards Bend the Knee e The Saddest Music in the World, ambos de 2003. No primeiro, um jogador de hóckey chamado Guy Maddin (!!!) convence sua namorada grávida a abortar, mas ela morre na operação, ou pelo menos é o que dizem a ele. A partir daí, uma trama que envolve a dona de um bordel, sua filha vingativa, mãos assassinas transplantadas (alguém conhece As Mãos de Orlac?), assassinatos e figuras de cera vai ser costurada por uma expressiva montagem quase eisensteineana, só que mais alucinada - mas longe do ritmo rápido de videoclipe ordinário. Essa história, que explicita ainda mais as obsessões do diretor por paixões doentias e pulsões sexuais de todo tipo, é divulgada por ele como completamente auto-biográfica! Já em The Saddest Music in the World, a dona de uma grande fábrica canadense de cervejas promove, em plenos anos 20 de lei seca americana, um concurso mundial onde cada país deve enviar um representante para toca a música mais triste do mundo. Além dos duelos hilários entre, por exemplo, uma bandinha mariachi e uma tribo africana, há a história de dois irmãos e uma só mulher (Maria de Medeiros) e o drama da poderosa industrial (Isabela Rosselini) que recebe de presente um par de pernas de vidro cheios de cerveja para substituir as que ela perdeu num acidente! Acreditem, a combinação entre o décor expressionista, o melodrama e a comédia absurda funciona perfeitamente.



décor expressionista em The Saddest Music in The World


Maddin tem uma produção prolífica para a TV, além de vários curtas-metragens. Dos que eu vi, há uma pequena obra-prima chamada The Heart of the World, feito por encomenda para o Festival de Cinema de Toronto em 2000 e onde, em meros seis minutos, ele combina religião, melodrama rasgado (novamente dois irmãos apaixonados pela mesma mulher), filme catástrofe e a mais bela homenagem ao cinema alemão dos anos 20 que Metrópolis poderia receber. Uma aula de concisão e ritmo, com resultado emocionante.

Os filmes de Guy Maddin falam de paixões alucinantes, traições escondidas, mentiras mal e bem-intencionadas e toda sorte de elementos que alimentaram por anos os mais baixos melodramas, mas que, carregados com um humor muito especial, morbidez e com ressonâncias atuais das mais variadas (os Estados Unidos do exagero em plena lei seca em The Saddest Music in the World é talvez a mais evidente), fazem com que seu cinema se afaste completamente do kitsch involuntário de várias outras "homenagens" que o cinema não cansa de se fazer. Com a combinação barroca dos elementos descritos acima, talvez fique talvez difícil de se acreditar. Mas o cinema de Maddin é para se ver, não para se descrever, embora dê muito o que falar.




Escrito por Milton do Prado às 17h42
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Acompanhe as filmagens da Clube Silêncio


Fabiano de Souza manda notícias da tournage de O Início do Fim:

"O dia de sábado começou quente e leve. Enquanto eu visitava o estúdio e ficava abismado com a força da porta da prisão branca (NE:uma das cenas do Sketches), o Gus ditava o ritmo tranqüilo de suas filmagens. No Capitólio, uma equipe animada, sincera e desatordoada flanava sobre um set decorado com esmero pelo Luís Roque Filho. Nilsson Asp parecia engolido pelo papel e mesmo nos seus sorrisos via-se o princípio da morte. Todos alertaram o correspondente - eu mesmo - que amanhã o dia será mais complicado. Que seja!

Na sede da Clube, Jaque e a incrível Karen fazem a retaguarda e aprontam o que falta para o Sketches. Geraldo, o incansável, prepara uma reunião de decupagem comigo, pois o cronograma está apertado feito virgem.

De noite, o André (NE:Luís da Cunha, fotógrafo do filme) chega e certamente esta noite não passará incólume.

Enfim, um pouco do nosso dia-dia.

Beijos, abraços e atiços para todos nós,

Fabiano"


Escrito por Milton do Prado às 15h17
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Mais da charada - regras e pista


??

Alguns reclamaram da falta de pistas para charada-revelação do dia 20/01. Vou aproveitar e colocar algumas regrinhas:

1- Cada leitor só pode tentar UM nome.
2- Leitores diferentes podem votar no mesmo nome (aliás, isso já aconteceu).
3- a cada dia tentarei colocar uma pista diferente. Na primeira mensagem, coloquei que era um nome da Nouvelle Vague. Hoje acrescento: já trabalhou com Jacques Rivette.
4- os vencedores ganharão uma caneca do Canadá, com a devida folhinha de plátano vermelha, entregue na próxima vez que eu for ao Brasil, num máximo de três vencedores (os três primeiros que acertarem).
5- com exceção da regra número 4, todas as outras podem ser modificadas a qualquer momento.


Escrito por Milton do Prado às 11h17
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Météo

Hoje de manhã faz -27 graus , com sensação térmica de -34. Ainda não chegou no recorde de 20 de dezembro (-27 com st -39), mas chegamos lá! Como dizem os quebequenses, il ne fait pas froid, il fait fret!


Suzi e Guto correm para chegar a tempo de pegar o ônibus

Escrito por Milton do Prado às 11h05
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Charada-revelação


?

Os leitores e amigos nem imaginam, mas tem um grande nome da Nouvelle Vague francesa que freqüenta a minha nova casa, mais ou menos uma vez por semana, proporcionando a mim e à Suzi alguns dos nossos melhores momentos aqui em Montreal. Agora, com a devida autorização dele, posso finalmente revelar quem é. Alguém arrisca?

Escrito por Milton do Prado às 17h14
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Dois novos curtas da Clube Silêncio


Deixei Porto Alegre com o coração na mão, principalmente por causa desse que foi meu maior investimento dos últimos tempos: a Clube Silêncio, produtora formada por mim, pelo Fabiano de Souza, pelo Gilson Vargas e por Gustavo Spolidoro. Depois de nove meses de gestação, lançamos a Clube no Festival de Gramado, com direito a uma festa fantástica (Alessandra Marder, Gus e esse que vos fala nas picapes), graças a nossos dois primeiros filhos gerados: os curtas Cinco Naipes, de Fabiano de Souza, e Messalina, da queridona Cris Oliveira. Ainda temos em finalização o primeiro curta do ótimo ator Nelson Diniz, A Domicílio, que, assim como o Cinco Naipes, foi montado por mim.

Pos a vida tem outros planos e tive que deixar a produtora com meus compreensivos e generosos sócios para me aventurar na terra de Leonard Cohen.

Mas a Clube Silêncio (cujo site, em homenagem à Chico Buarque, está em construção) está a mil, pois nossos projetos são muitos e gás é o que não falta! Começam nesse próximo sábado as filmagens dos dois novos curtas: Início do Fim, de Gustavo Spolidoro, e Sketches, de Fabiano de Souza, completam o ciclo de cinco curtas no primeiro ano da produtora.

Ambos foram vencedores do 9º Prêmio Iecine/Gov-RS. Início do Fim será filmado nas ruínas do Cine Capitólio, antes que o mesmo se transforme na Cinemateca Capitólio; no prédio da Medicina da UFRGS e em um sítio na Zona Sul. Sketches terá lugar no Hospital São Pedro e em estúdio. Os dois filmes são o terceiro trabalho de curta-metragem em 35mm de ambos os diretores, que têm ainda, cada um, dois curtas em 16mm, além de super-8 e trabalhos para a TV no currículo.

Diferente dos dois primeiros, que apresentavam situações onde erotismo tomava forma, os novos curtas da Clube Silêncio primam pela angústia e opressão de seus personagens, em situações extremas, como a espera pela morte, seja durante um ataque aéreo em Início do Fim, ou em uma prisão-purgatório em Sketches. Seguem ficha e sinopse dos filmes:



O ator Nilsson Asp e o diretor Gustavo Spolidoro trocam olhares

Início do Fim, 7min (estimado), 35mm, cor, ficção
direção e roteiro Gustavo Spolidoro (Domingo, Outros); elenco Nilsson Asp; Produção Camila Groch e Jaqueline Beltrame; Direção de Fotografia Mauro Pinheiro Jr.; Direção de Arte Luiz Roque Filho; Montagem Milton do Prado

Durante um ataque aéreo, em lugar e tempo indeterminados, cansado e solitário, um homem veste a sua melhor roupa para esperar aquele que é o segredo desta vida.”




O diretor Fabiano de Souza e a dupla dinâmica de atores Nelson Diniz e Kike Barbosa

Sketches, 18min (superestimado), 35mm, cor, ficção
direção e roteiro Fabiano de Souza (Cinco Naipes, Um Estrangeiro em Porto Alegre); elenco Kike Barbosa, Nelson Diniz, Liane Venturella, Sandra Dani, Júlio Andrade, Rodrigo Najar e apresentando o menino Nicolas Machado Noal; Produção Camila Groch e Jaqueline Beltrame; Direção de Fotografia André Luís da Cunha; Direção de Arte Élcio Rossini; Montagem Milton do Prado

Dois presos se conhecem em uma cadeia. Na falta de comida eles resolvem o problema com uma aposta: quem tiver cometido o pior crime concordará em ser comido pelo outro.

As filmagens seguem até o dia 27. Evoé!


Escrito por Milton do Prado às 19h04
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Pequena recauchutada no blogue


Me arrependo até hoje de não ter prestado atenção às aulas de html que foram oferecidas, de forma precursora até, em 1995 na UFRGS. Hoje, para mudar minimamente o visual desse blogue, quebro a cabeça para colocar um simples negrito (tá, estou exagerando) - e a incompatibilidade entre o Uol Blog e o Internet Explorer para Mac não ajuda. Enquanto não compro meu exemplar de “HTML pour les Nuls”, vou fazendo o que posso, mas destaco algumas alterações.


NOVAS CONEXÕES - Sites

Contracampo - a melhor revista brasileira de crítica de cinema da rede, sem dúvida, já está no seu número 67 e foi eleita o melhor site de cinema no Quepe do Comodoro. Vale a pena navegar e descobrir as várias sessões.

Mulheres do Cinema Brasileiro
– belo e singular site cujo nome já explicita a homenagem. Entrevistas, biografias, procura por nomes, por décadas etc.

Polish Poster Gallery
– procurando por uma imagem de Busca Frenética para ilustrar meu texto anterior, descobri essa maravilha. Destaque para os cartazes de filmes americanos. Seriam os poloneses os melhores cartazistas do mundo? Os mais malucos e sombrios, com certeza. Para abrir o apetite, vão os cartazes de Rosemary’s Baby (Polanski, 1968) e After Hours (Scorsese, 1985)



NOVAS CONEXÕES - Blogues

Diário de um Cinéfilo
- outro ganhador de um Quepe do Comodoro, o Diário vale pela sua apaixonada (e constante) cobertura cinematográfica de Aílton Monteiro, cinéfilo de Fortaleza. A evolução do seu texto desde 2002 é evidente.

Sétima Arte
- outro blogue de outro cabra da peste, desta vez de Natal, com bons textos, com destaque para quando o autor tenta vôos mais livres, de ficção, como no texto VISÕES CINEMATOGRÁFICAS - O QUARTO DO CEGO, de 04/01/2005.

Nomes originais dos filmes

Recebi reclamações quanto à publicação da minha lista dos melhores de 2004 com os nomes em português. Primeiro foram os brasileiros que moram em Montreal, que não sabiam o que era Encontros e Desencontros. Depois foi uma amiga que, com razão, acredita que os tradutores desse filme no Brasil levaram ao pé-da-letra o título original, Lost in Translation. Coloquei os títulos originais e vou me esforçar para fazer isso daqui em diante.

Foto da janela

Por fim, a leitora Gabriela Motta, mais conhecida como Gabi, mas também por Gabilina, reclamou da demora das fotos mais “pessoais". Então vai uma aí, da janela do quarto do Guto.


nevasquinha em 11 de dezembro de 2004

Escrito por Milton do Prado às 14h45
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O estrangeiro e Polanski


A condição de estrangeiro em Montreal pode sugerir uma inspiração no meu amigo Fabiano de Souza, autor do ótimo curta Um Estrangeiro em Porto Alegre (1999), que recicla Camus em plena praia de Rondinha, RS. Mas a idéia desse texto veio a partir de outro companheiro, Gilson Vargas, que me escreveu logo depois que cheguei aqui perguntando como eu me sentia estrangeiro, sobre essa estranha, às vezes fascinante e às vezes assustadora condição de estar descobrindo um novo lugar, pela primeira vez.

Às primeiras semanas de pura excitação, quando se descobre um Quebec que vai muito além do xarope de plátano, seguem-se momentos de uma certa melancolia que vai se instalando aos poucos, pelo simples fato de você não pertencer ao lugar. Nada à ver com o fato de ser brasileiro terceiro-mundista na terra dos ultra-desenvolvidos canadenses – não vou começar aqui com o chororô derivado do complexo de inferioridade que nos acomete muitas vezes, até porque aqui, em Montreal, estrangeiro é quase maioria. Falo dessa sensação estranha de que estão nos olhando de uma maneira diferente, de que está escrito na sua testa que você não pertence àquele lugar, àquela cultura, de como essa sensação se multiplica em sua cabeça e de como esse incômodo é inseparável do prazer de estar em uma nova praça. É um sentimento mais existencial que político.


I've seen this face before...

Recorro a um dos cineastas que, na minha opinião, melhor colocaram esse sentimento nas telas. Nascido em Paris, mas criado na Polônia natal de seus pais, Roman Polanski sentiu na pele essa condição de cidadão do mundo, morando e filmando na Polônia, nos Estados Unidos, na França, com passagens pela Inglaterra e Itália. Não vou forçar a barra e tentar enxergar o tema em toda sua obra, mas vou pular um exemplo possível (a americana jovem que chega numa cidade mediterrânea completamente maluca em Quê? (Che?, 1972) e me concentrar em outros dois: O Inquilino (Le Locataire, 1976) e Busca Frenética (Frantic, 1988).


O Inquilino: people are strange?

Não revejo O Inquilino há uns bons 10 anos, mas o tenho como meu Polanski preferido. A história do homem (polonês?), vivido pelo próprio diretor, que chega em Paris e aluga um apartamento onde anteriormente um locatário teria cometido suicídio, é exemplar desse sentimento de que eu queria falar. O proprietário, o vizinho, mesmo aqueles que aparentemente seriam mais amigáveis, começam aos poucos a parecer uma ameaça para ele. À medida que o filme avança, a tensão psicológica cresce, fazendo com que apareça o famoso “riso nervoso” no espectador, que começa a se perguntar se os vizinhos são realmente uma ameaça ou se nosso “herói” que está imaginando tudo. E a tensão cresce, pois ele parece atraído por essa ameaça, como se ela, por maior que fosse, não barrasse a sua curiosidade.


estátua da Liberdade em Paris?

Vi Busca Frenética lá por 1990 e achei um Polanski menor. Revi na TV, duas semanas depois que cheguei aqui, e novas camadas desse filme me pareceram agora mais evidentes. A primeira meia hora de filme, com Harrison Ford como um médico bem-sucedido que chega com a mulher em Paris (de novo?) para uma conferência e nova lua-de-mel, e de repente descobre que sua mulher sumiu, é um dos grandes momentos do cineasta. A tensão segue um crescendo, como em O Inquilino: a mulher sumiu ou está somente atrasada? Por que ela sumiu? Ela teria um amante? As dúvidas começam a se amontoar e as respostas chegam vagarosamente - em todo caso a condição de estrangeiro é o dado que deixa a situação insuportável. A polícia parece não acreditar nele, os funcionários do hotel o olham de forma estranha, o homem que atravessa a rua é um suspeito, o dono da loja onde sua mulher foi o acha suspeito. Como diria Jim Morrison num dos seus momentos felizes: “People are strange when you are a stranger, faces look ugly when you’re alone”. Pena que, quando as respostas chegam, o filme cai um pouco e transforma-se quase num policial banal. O que o salva, no final, é o jogo entre a atração e o medo que o personagem sente dessa nova situação. Quem não concorda comigo, sugiro rever a cena em que Harrison Ford e Emmanuelle Seigner dançam ao som de I've Seen That Face Before (a fantástica versão de Grace Jones para Libertango, de Piazzola). Tesão e perigo, juntos e inseparáveis.



Claro que a vida de Polanski é recheada de fatos macabros suficientes para que sejam outras as inspirações de seus filmes. Mas se em Bebê de Rosemary (Rosemary's Baby, 1968) ou O Último Portal (The Ninth Gate, 1999) o terror vem do sobrenatural, em O Inquilino e Busca Frenética ele mostra que o medo pode estar do seu lado, em seu vizinho, ou mesmo em sua cabeça, a partir do momento que você sai de tudo aquilo que você construiu como “seu mundo”, e que esse medo pode ser muito atraente. Vivi isso em 1994 quando cheguei em Porto Alegre e agora vivo isso numa escala muito maior. Existe um prazer quase masoquista em ser atendido no Les Co'pains d'abord por aquela serveuse que sempre tem um sorriso no canto da boca quando você fala com seu acento brasileiro. Existe um fascínio quase sádico quando algum quebecois solícito e receptivo lhe oferece ajuda na rua. A sensação de descobrir um mundo novo é excitante, muitas vezes acompanhada de um pequeno sentimento de hostilidade sutill e difuso. Falo isso sem esquecer que estou, com certeza, numa dos lugares mais tolerantes do mundo.



Em tempo: o Les Co'pains d'abord é uma ótima boulangerie desse bairro fantástico chamado Plateau Mont-Royal, com pães e atendimento de primeira.



Escrito por Milton do Prado às 18h24
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2004 - meu ano no cinema


Pensei que começar um blogue com uma revisão do ano passado no cinema seria uma barbada, sorte de quem começou no mês de janeiro. Engano - dá um puta trabalho revirar anotações, conferir datas... e decidir! Num ano em que trabalhei muito no primeiro trimestre (montagem de curtas, lançamento da Clube Silêncio, aulas na Unisinos) e me mudei de país no segundo, é interessante ver a diferença de um para outro. No primeiro predominam as revisões em vídeo, no segundo as salas de cinema, em lançamentos e mostras. Mas vamos parar de encher o saco e ir para o que interessa. Começo meu ano passado no cinema com minha lista de 10 melhores, vistos na telona, com a possível e inevitável presença de alguns filmes que não estrearam ainda no Brasil.

Kill Bill Vol.1
- derivativo, inconseqüente, incompleto; ainda assim, o filme mais excitante do ano. Esqueci o crítico que disse isso, mas assino embaixo: Tarantino fala cinemês. Quando ele investe nos jogos narrativos e na criação dos personagens, acerta em cheio. Quando ele quer ser mais "contemplativo" (na falta de uma palavra melhor), o ânimo cai um pouco, como no Kill Bill Vol.2. E não me venham com essa de que é um filme só!



Elefante
(Elephant) - Esse Gus Van Sant é um dos casos mais sui generis da história recente do cinema americano. Não tem muito meio termo, ou vai de dramalhão bundão ou vai direto na doença americana. Aqui ele não sabe as causas, só perscrute. É triste e assustador.

Os Incríveis
(The Incredibles) - Tem gente que acha que o cinemão americano mais inteligente que existe hoje em dia está nas animações. Eu discordo um pouco. Acho que está na Pixar, que aqui se superou. Watchmen + 007 + visual dos 60's + completo domínio de ritmo faz a gente acreditar que ainda é possível um blockbuster ser bom.

Dogville
- Tem gente que vai me bater porque esse está atrás dos Incríveis, mas fiz questão de não colocar um número na frente dos títulos, cada um deduz o que quiser. O fato é que esse Lars Von Trier é excessivo em vários sentidos, da semi-demagogia anti-americana à duração do filme. Mas a convicção traduzida em imagens não deixa dúvida que este é um dos cineastas mais importantes do mundo. E tem Nicole Kidman iluminada.

Encontros e Desencontros
(Lost in Translation)- O filme que para mim capta uma certa sensibilidade pop que estava em falta (às vezes ela aparece nos filmes de Richard Linklater). Just like honey.

Fahrenheit 9/11
- Errol Morris pergunta, Michael Moore responde. Prefiro mil vezes a postura do primeiro, mas não posso negar o talento do segundo - e estou falando de cinema, não de política. Nesse ano, foi melhor que A Névoa da Guerra (que talvez ficasse entre meus 20 melhores).



Infernal Affairs
(Wu jian dao) - Policial de Hong Kong de 2002 (já tem duas continuações!) que só passou no Canadá agora, que trata do enfrentamento entre um policial infiltrado na máfia e um mafioso infiltrado na polícia. Espécie de Face Off, do John Woo, sem a parte fantástica e sem Nicolas Cage. Ou seja, melhor. Simplesmente eletrizante!

Garotas do ABC
- Carlão volta ao estilo mais anárquico na postura, na narrativa, na montagem, e encontra nas imagens de Jacob Solitrenick uma tradução-parceria ideal. Filme feminino onde os atores masculinos são ótimos. Fica uma pergunta no ar: por que ninguém mais filma com Ênio Gonçalves, um dos grandes atores brasileiros?

Whisky
- Minimalista, triste e engraçado. Alguns acharam esquemático, eu achei extremamente tocante. Da mesma turma do também ótimo 25 Watts, fazendo bom cinema no Uruguai.

Kinsey
- Pra mim Bill Condon está se revelando, dos novos cineastas clássicos americanos, o melhor. Prova cabal que clacissismo não é necessariamente caretice, Kinsey vai além das tradicionais e geralmente enfadonhas cinebiografias para investigar a obsessão de um homem que detestava o obscurantismo. Filme necessário nesses dias ainda conservadores. E eu não resisto ao clichê: Liam Neeson nasceu para o papel.

Outros destaques: Hero (perdeu o posto para Kinsey por uma questão ideológica: esse belo filme de Zhang Yimou beira o reacionário), As Biciletas de Belleville, Kill Bill Vol. 2.


Escrito por Milton do Prado às 13h05
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Eu me rendo


Demorou um pouco, mas me rendi a essa nova ferramenta de comunicação chamada blogue, que já aviso que utilizarei assim mesmo, aportuguesada.

Motivos como praticidade, economia, rapidez, curiosidade e uma pitada não-desprezível de tempo livre me fizeram encarar a blogagem, principalmente com o objetivo de trocar minhas impressões sobre meu exílio dos próximos quatro anos, Montréal, Quebéc, Canadá. Deixei no Brasil os amigos e a produtora recém-parida, meu grande investimento pessoal dos últimos tempos, que espero encontrar na(s) minha(s) volta(s).

Quem esperar um diário pura e simplesmente pessoal, com fotos da família brincando na neve e coisas do gênero, pode dar meia-volta. Quem achar que não vai ter nunca esse tipo de coisa, pode dar meia-volta também. Não pretendo me censurar, nem me policiar, mas muito provavelmente as impressões cinematográficas vão predominar.

Hochelaga é como Montreal era conhecida antes da chegada dos franceses e bem antes deles começarem a se engalfinhar com os ingleses por esse grande pedaço de terra até hoje não tão habitado. Meu olhar de estrangeiro influencia evidentemente o cinema que vejo, e o cinema que vejo influencia minha experiência nessa terra nova. O Olho de Hochelaga vai falar um pouco sobre isso. Às vezes sou cínico, mas romântico o suficiente para acreditar que o blogue pode vir a ser um meio de expressão e comunicação. Como todo diário que se preza, dificilmente vai ser atualizado diariamente.

Por fim, devo dar crédito a dois incentivadores involuntários: Carlão Reichenbach, que não sei de onde tira energia para publicar o fantástico Reduto do Comodoro e ainda criar o maior evento-celebração de cinema/internet do Brasil; e Eduardo Aguilar, amigo virtual, cinéfilo apaixonado e blogueiro iniciante, como eu. Como homenagem, coloco seus respectivos blogues como meus dois primeiros links.

Acho que pra começar tá bom. Tenho que aprender a mexer nesse troço direito.
Abraços a todos e sejam bem-vindos.


Escrito por Milton do Prado às 13h29
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