O Olho de Hochelaga


Paisá de cara nova


A Paisá fez uma bem-vinda mudança visual que parece indicar uma nova fase da revista. Tem uma crítica do Francis Vogner para o novo Allen (que continua inédito em Montreal) e a filmografia comentada do diretor pelo Sergio Alpendre (discordo de boa parte, mas ficou muito legal).

Fantástico é o texto do Filipe Furtado para I'm not There: desses textos que pegam pra si a por vezes difícil tarefa de entender um filme que boa parte da crítica já achou que entendeu - o que, no caso do filme do Haynes, não deixa de ser curioso. Um dos melhores textos sobre o filme que eu li.


Escrito por Milton do Prado às 10h56
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Crônicas sergipanas


10 dias em Aracaju, depois de 4 anos. Bom motivo para reviver o blogue com observações esparsas:

- fiquei impressionado com a programação de filmes no avião da Air Canada. Cinco canais diferentes, com várias opções em cada um. Na opção Hollywood, dava para ver No Country for Old Man ou Michal Clayton; na French Film, algumas comédias bobas, mas também a Le voyage du balon rouge; na Classics, Gold Rush e... Contos da Lua Vaga !!!!! Só para ficar em alguns exemplos.

Tentei encarar o Le voyage du balon rouge, mas depois de 20 minutos desisti. Nada contra o filme, pelo contrário. Simplesmente não é o tipo de filme para se ver numa tela minúscula sem contraste algum e aeromoças tentando servir o lanche. Fiquei com The Heartbreak Kid dos irmãos Farrely e gostei mas do que pensei que iria gostar. Sim, eles estãos e repetindo, mas algumas piadas são de rachar o bico, principalmente as que envolvem a loira (a atriz morena parece que nunca entra mesmo no filme). Outro filme que me impressionou foi Michael Clayton, classudo e sério na medida certa - achei inclusive que tem semelhanças formais com La question humaine, mas precisava aprofundar mais isso. Por fim, Death at Funeral não é a melhor comédia do mundo, mas é um filme com muita noção de seus limites (inclusive do espaço) e de suas forças (elenco, principalmente).

- Aracaju mudou bastante e acho que na maior parte para melhor. A cidade cresceu, mas controladamente. Está mais arborizada e cuidada, e me parece que no centro e na periferia também. A ponte Aracaju/Barra dos Coqueiros, grande golpe político de desespero do antigo governador, é muito bonita e uma mão-na-roda para ir para à ilha. A cidade está limpa e mais organizada. Também me deu a impressão que tem mais coisas acontecendo: novas bandas, algum teatro sendo feito, e um novo movimento de cinema (vamos deixar essa de "audiovisual" para outra hora, ok?) querendo surgir. A implantação do tal Núcleo de Produção Orlando Vieira é uma das coisas mais legais que já vi por lá, disponibilizando equipamento e qualificando o pessoal para produzir mais. O resultado é que tem gente fazendo, coisa que (quase) não havia no início dos anos 90. Deu tempo até para eu bater um papo com o pessoal sobre montagem, e para minha surpresa o nível das perguntas e do interesse foi muito bom.

Por outro lado, alguns problemas pioraram. O trânsito tá uma merda, tanto porque todo mundo pega o carro até para comprar pão na esquina, quanto porque a falta de respeito impera. É um tal de cortar pela direita, esquerda, por cima, por baixo... Só não tá pior por causa da fiscalização eletrônica (sou dos defensores disso em qualquer lugar do Brasil). Outro dado negativo: as praias que estão numa sujeira infernal. E aí não dá pra criticar a Petrobrás ou multinacionais poluentes: a população mesmo é que suja. Teve um dia que encontrei todos os tipos de plástico possíveis na água (saco de lixo, copinho, modess) e um verdadeiro tapete feito de tampa de garrafa. Falta a prefeitura limpar, distribuir lixeiras, educar e, medida última mas imprescindível, fiscalizar e multar. Porque se piorar um pouco fica impraticável.

- Revival culinário: caranguejo (sobre o qual meu filho perguntou "papai, por que tem tanto pêlo?"), amendoim cozido (o melhor do Brasil, com efeitos afrodisíacos coprovados!), peixada, caldinhos de sururu e de feijão (devidamente apimentados), suco de mangaba (vale por uma refeição!). Só ficou faltando o acarajé, mas como a Suzi tava mal de digestão nos últimos dias, preferi me poupar também.

- Foram 9 dias em Aracaju + 2 e meio em trânsito. Dos 9 em Aracaju, cerveja em 8. Dos 8, só bebi pouco em 2.

- Depois do segundo inverno com mais neve da história (medida) de Montreal, nada como encarar o sol e o calor para recuperar as baterias. Mas confesso que no final o calor já me irritava um pouco.

- No Canal Brasil, vi A Culpa, de Domingos de Oliveira, filme do qual nunca tinha ouvido falar. Curiosíssimo, mas que nunca levanta vôo. Agora, um filme com Paulo José, Dina Sfat e Nelson Xavier improvisando não pode ser desprovido de charme e interesse.

- Vi no cinema com o Guto o tal de Crônicas de Spiderwick. 20 minutos para me acostumar com a dublagem (que era ruim, e olha que sempre que posso defendo a dublagem brasileira). O som do cinema também tava uma merda (alguém tem que reclamar com o Cinemark, atualmente a única rede de salas da cidade). Mas o filme é bem interessante, com um ritmo muito bom (sobretudo depois da primeira meia hora, meio atropelada), ambientação interessantíssima (é uma mistura de fantasias à Narnia com filme de casa mal-assombrada) e roteiro com participação do John Sayles. Ok, a moral final enche o saco, mas me lembrou o bom Spielberg (de ET, por exemplo) na história da família com pai ausente. Ah, a participação de Nick Nolte é nota 10.

- Um certo clima bizarro imperava no ar: um tio doente (grave), minha mãe recuperando-se de cirurgia (nada grave, mas sempre um incômodo), falecimento do sogro de minha irmã (que me levou a uma inesperada missa de sétimo dia) e, como se não bastasse, minha vó com dengue. Mas era uma versão mais suave da doença, o que permitiu comemorar os 90 anos dessa mulher maravilhosa.

- Encontrei velhos amigos e tive ótimos momentos, embora o tempo não tenha permitido matar toda a saudade.

Agora, de volta à realidade.

Escrito por Milton do Prado às 23h28
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actors about Leone


Não adianta: mesmo entrevistas anódinas são interessantes quando os assuntos são alguns dos melhores filmes da história do cinema. A com De Niro é especialmente sem graça, mas eu nunca tinha visto De Niro falar do filme.






Escrito por Milton do Prado às 14h10
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Paranoid Park


Blogue meio morto, por absoluta falta de tempo. Bom, absoluta nunca é verdade, mas o fato é que as coisas devem ir mudando aos poucos.

Por enquanto, algumas impressões exparsas sobre um filme visto ontem a noite que não pára de crescer em minha cabeça. Paranoid Park do Gus Van Sant é não somente mais uma tentativa do cineasta em mostrar o mundo adolescente, mas um dos mais belos filmes a explorar as outras dimensões desse mundo (em qualquer sentido de "dimensões").

E tenho que rever o filme antes de arriscar uma interpretação, mas cresce em mim a impressão que o tema da descoberta da sexualidade é muito mais presente do que uma leitura rápida dá a entender. E que talvez seja esse o x do filme.

A rever, e a voltar aqui.


Escrito por Milton do Prado às 11h37
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Alfred 2007


O resultado já saiu segunda, mas pra quem ainda não viu, CLIQUE AQUI.

Resultado interessantíssimo, aliás. Primeira vez que um filme brasileiro disputa a categoria de melhor filme e o que acontece? Não vi ainda o filme do Coutinho, mas como o considero um dos 3 melhores diretores brasileiros vivos...

O Resnais de melhor diretor também é algo bonito de se ver (vejam a cara de faceiro que ele fez quando soube que ganhou o Alfred!).


Escrito por Milton do Prado às 11h38
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Reenacted


Todo mundo sabe que Brian De Palma é um exagerado



Escrito por Milton do Prado às 11h29
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Deu um medo, mas já passou.





Escrito por Milton do Prado às 10h49
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Distribuição


É incrível como o público geral que gosta de falar de cinema brasileiro (e estou falando daqueles que vêm filmes brasileiros) não têm a menor noção de como funciona distribuição. Nenhuma idéia sobre o pesadelo caótico e sem regras a que damos o nome de distribuição. Mas teorias sobre o que o cinema brasileiro deveria fazer para ter mais público não faltam.

Mudando um pouco o foco: também é notório por parte do público mais bem informado que o sistema de distribuição do Brasil, para filmes de todo o mundo, é bastante sem sentido.

Pois bem, tenho que dizer que cada vez mais chego a conclusão que é assim no mundo todo.

Um exemplo entre outros, daqui de Montreal: Ne Touchez pas la hache, último filme de Jacques Rivette, ainda não foi exibido aqui. Nenhum dos dois grandes festivais do ano passado passou. Nem um outro festival só de filmes francófonos com legendas em inglês. Montreal é a maior cidade francófona do país (quase 3 milhões de habitantes, 70% francófona). O filme foi exibido no Festival de Toronto, mas em nenhum de Montreal.


Ah, ok, estamos falando de festivais, não de distribuição. Ok. O filme estava previsto para estrear semana passada. Foi anunciado em vários sites etc. Chega quinta-feira, abro o jornal para ver as estréias... nada. Vou agora no site onde tem as informações mais precisas sobre estréias, o mesmo que colocava dia 22 de fevereiro como estréia do filme, e simplesmente o título não está mais anunciado.

Enquanto isso, dia 29 La Môme (Piaf, para os íntimos) volta a cartaz em não-sei-quantas-salas.

Ah, ok, existem outros fatores. O filme foi mal de crítica? Não, foi muito bem recebido em todos lugares onde foi exibido; Rivette é um cara meio difícil, tu sabe... Não, o filme é considerado um dos Rivette mais acessíveis; mas o filme é difícil de se vender, né? Não, é um filme de época, do tipo que tem um público-alvo certo, aquele público que gosta de cinema "de arte" e que faz questão de chamar assim sempre que vê um figurino de antes do século XX, independente de se o diretor é Rivette ou Lelouch - o que não garante sucesso de bilheteria, mas convenhamos que "Adagio pour un gars de bicycle", que estréia dia 29, também não é nenhum blockbuster em potencial.

Ou seja: daqui a pouco sai (se é que não saiu ainda) o DVD europeu e milhares de cinéfilos vão baixar o avi do filme pela internet.

Puta que los pariu!


Escrito por Milton do Prado às 12h05
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Um amigo reclamou porque não falei ainda do No Country for Old Men. Bem, o principal motivo é que não tenho muita vontade. Boa parte do que acho do filme foi dita pelo Carlão Reichenbach:

http://redutodocomodoro.zip.net/ (ver post de 14/02)

E como a preguiça é amiga do homem, copio e colo aqui o comentário que deixei lá:

"Carlão, você não tem idéia de como fico extremamente aliviado de ler essa opinião sobre o filme dos Coen, que é muito próxima da minha. O engraçado é que se formou uma espécie de trincheira crítica que repete a exaustão que quem não gostou do final é: 1) porque não entendeu; 2) porque o final não é mastigado. Porra, o buraco é bem mais embaixo: é óbvio que os caras não souberam terminar o filme - e o fato disso ser fiel (no sentido da história) ao livro não quer dizer absolutamente nada."


Escrito por Milton do Prado às 13h28
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mondo cane


http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u372631.shtml


Escrito por Milton do Prado às 13h23
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Making Meaning


Quatro dias de febre me permitiram avançar em algumas leituras, por mais que às vezes meu cérebro parecesse estar em banho-maria. Posso dizer que a mais interessante, e com certeza mais surpreendente, foi a leitura de Making Meaning, de Bordwell.

Não sou exatamente do estilo semi-científico de Bordwell, e acho que isso se reflete em alguns dos capítulos do meio do livro, onde a necessidade de se comprovar cada um dos problemas que o autor associa à interpretação de filme faz com que os exemplos se enumerem tediosamente. Nem me engano pela proposta de uma certa "renovação acadêmica" dele (feita, é bom lembrar, em 1989). Nem mesmo ignoro o fato de alguns conceitos-chave não são completamente convincentes, como a distinção que ele faz entre "implicit" e "explicit meaning" (o exemplo que ele dá, relativo ao Mágico de Oz, simplesmente não permite sustentar essa diferença).

Mas o livro não deixa de ter dois grandes valores:

1- Propor uma historiografia da crítica, principalmente nos níveis acadêmico e de revistas especializadas (ele ignora, compreensivelmente, a crítica do jornal diário) nos capítulos 3 e 4. É extremente informativo, reflexivo e divertido (embora o cinismo dele seja também repetitivo).

2- Propor um sistema de análise que, se anêmico nas possibilidades (e eu acredito que o seja), pelo menos resgata o FILME como centro de uma disciplina que precisou apelar para todo tipo de teoria para buscar afirmação e se esqueceu do que estava analizando.

Dito isso, Making Meaning é leitura mais que válida. Para aqueles que, como eu, não se empolgam com as análises feitas por Bordwell, pode-se dizer que ele talvez seja melhor em diagnóstico do que em tratamento.


Escrito por Milton do Prado às 16h19
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fevereiro


A Suzi acha novembro o pior mês em Montreal. Faz sentido. Os dias são cada vez mais escuros, mas não têm ainda as luzes nem o movimento de natal nas ruas. Faz muito frio, mas não tem a neve de janeiro para embelezar - ao contrário, chove bastante. É outono, mas as folhas todas já caíram, nos privando do espetáculo de cores de outubro. Festivais e eventos já acabaram, e a programação cultural é meio morna. Enfim, um mês triste, com certeza o pior mês para alguém vir visitar a cidade (aconselho julho a agosto para verão, embora o turismo seja over; ou setembro-outubro para festivais e o belo outono; ou natal e janeiro pra neve).

Mas acho que, morando aqui, o pior mês é fevereiro. Foi assim em todos os quatro que passamos aqui. O problema maior é simples: simplesmente a essa altura da estação o corpo responde muito mal ao inverno. A rigor (palavrinha boa para falar do inverno daqui), o frio chega bem antes do 21 de dezembro oficial. A média do mês ainda é baixa (cerca de -9) e picos de -20, que é para mim quando a coisa começa a ficar desagradável, são ainda freqüentes. Claro, há mais luz que em janeiro e dezembro, mas acho que nossas reservas de energia já estão lá embaixo. Não sei por que, acabei de lembrar de River Raid.

Março já é um pouco diferente. Tem mais luz. A temperatura é um pouquinho mais branda. A neve na rua derrete mais rápido. As coisas começam, muito lentamente, a mudar!

Otimismo pouco é bobagem. Até porque esse ano fevereiro tem 29 dias.


Escrito por Milton do Prado às 16h15
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Where Do You Go To My Lovely




com vocês, Peter Sarstedt.



Escrito por Milton do Prado às 12h58
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Nous ne vieillirons pas ensemble


Nunca vejo esse filme numa lista de melhores de Maurice Pialat. No entanto, é um dos mais impressionantes trabalhos do diretor. Mostra basicamente a história de um casal de amantes - ele, cineasta de +- 40 anos, casado, ela, 25 anos, solteira - se separando. Na primeira metade, que começa quando eles já estão juntos há mais de seis anos, acompanhamos uma série de humilhações físicas e principalmente verbais pelos quais ele a faz passar. Na segunda, a coisa se inverte um pouco, no sentido em que ela vai se afastando e ele começa a se dar conta do quão dependente dela era. Poucas vezes no cinema uma relação amorosa à flor da pele foi mostrada com tanta verdade.

Recheados de fascinantes personagens secundários, como por exemplo a mulher "traída", Nous ne vieillirons pas ensemble é sustentado por um dos mais belos jogos de atores que se pode ver na história do cinema. É possível escrever um texto somente sobre a troca de olhares entre Jean Yanne e a belíssima Marlène Jobert (mãe de Eva Green), à medida que o filme avança e os sentimentos em ebulição conduzem a demonstrações de ódio, amor, tristeza, resignação etc.

Um belíssimo e doloroso filme.

Nous ne vieillirons pas ensemble



Escrito por Milton do Prado às 15h09
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Atonement


Alguém pode me explicar como um filme que começa com uma interessantíssima construção narrativa (ainda que por vezes excessivamente calculada) e que tinha tudo para ser um estranho híbrido de A Regra do Jogo e Blow Up, vai aos poucos se transformando numa espécie de Paciente Inglês parte 2 ?????? - tudo coroado com a presença do próprio Minghela como o entrevistador na péssima cena final.

Provavelmente o filme-furada dos últimos meses, que só pode ser admirado se pensarmos como aqueles críticos de antigamente, fragmentando tudo: é bem fotografado, é bem montado, bem "dirigido", a atriz é boa... tudo se visto isoladamente, pois em vistos em conjunto não sobra muita coisa

Atonement


Escrito por Milton do Prado às 02h24
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