O Olho de Hochelaga


Amor Louco veio ao mundo

http://www.amorlouco.wordpress.com/



Escrito por Milton do Prado às 11h04
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Vem aí outro blogue

O Olho de Hochelaga não morreu, mas está hibernando nessa época de readaptação ao Brasil. Ele vai dar espasmos de vez em quando, até ser completamente abandonado. Peço desculpas aos eventuais leitores.

Mas em janeiro tem outro blogue pintando. E logo agora que eu pensava em mudar para outro "servidor" de blogues, o UOL dá uma melhorada no editor. Vamos ver.

Aguardem mais notícias em breve.

 

 



Escrito por Milton do Prado às 23h39
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TCHAU, MONTREAL!

até a proxima.

Escrito por Milton do Prado às 15h27
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Escrito por Milton do Prado às 17h16
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Escrito por Milton do Prado às 15h24
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La Graine et le mulet


Ótimo filme do diretor do ótimo L'Esquive, comprovando o talento de Kechiche para trabalhar com atores, principalmente em cenas de grupo. Duas cenas fantásticas: o almoço da família e o papo dos músicos na mesa do hotel. A maneira em que a trama vai sendo preparada é coerente com o assunto do filme e é interessante ver mais um exemplo de como dito "naturalismo" (termos usado na maioria das vezes por preguiça, mesmo) contemporâneo recicla alguns procedimentos de suspense: depois que os irmãos Dardenne construíram uma excelente cena de perseguição com quase nada, é a vez de Kachiche transformar o cuscus em elemento hitchcockiano. O filme é bem mais ambicioso que o anterior, e aqui e ali tem algumas gordurinhas, que acabam no entanto perfeitamente integradas no conjunto.

Como se fosse pouco, esse filme que tem um carinho imenso por seus personagens apresenta duas das melhores interpretações que vi no ano (Habib Boufares, que faz Slimane, e Hafsia Herzi, que faz Rym).


Escrito por Milton do Prado às 20h04
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mini-conto


Sorte de hoje no orkut: todos os seus sonhos serão realizados.

Ok, Scarlett, pode tirar o sutiã.


Escrito por Milton do Prado às 12h46
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palavrinhas sobre blogues e revistas


Ontem dei uma última atualizada nos links ao lado, que, longe de serem uma lista definitiva dos melhores na internet, mostram que hoje são várias as opções revistas digitais brasileiras de cinema (quando o Olho começou só tinha a Contracampo e outras que dividiam cinema com outros assuntos, enquanto que hoje temos a Paisá, Cinética, Zingu!, Cinequanon etc). Além disso, vários novos blogues interessantes surgiram, tanto de gente nova quanto de veteranos como José Carlos Avellar, Jean-Claude Bernardet, Inácio Araújo e até, de forma póstuma, Jairo Ferreira, entre outros. Com o passar do tempo fui ficando mais seletivo com os blogues e acabei limando alguns que pararam de atualizar por muito templo, mas confesso que, na grande maioria das vezes, não linkei alguns blogues e sites por pura preguiça ou desatenção. No final das contas, além de me permitirem fazer alguns amigos virtuais, os links ao lado me dão uma boa quantidade de opiniões sobre cinema, boa parte deles freqüentemente atualizada.

Claro que nem tudo são flores: ainda há críticas macaqueando o formato dos nossos jornais, há muita tentativa de ser engraçadinho com tiradas "espirituosas", há algum pedantismo deslocado e faltam formatos mais audaciosos, formal e intelectualmente falando - problemas esses que podem ser encontrados esporadicamente e em graus diferentes em vários posts aqui do Olho.

Mas, no frigir dos ovos, não tem como esconder o fato que o panorama geral de blogues e revistas na internet é bem melhor hoje em dia do que no início de 2005. Isso que nem falei no acesso a publicações e blogues estrangeiros.



Escrito por Milton do Prado às 16h29
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La Catherine Ringer


Nesses quatros anos em Montreal, houve um show que eu realmente me arrependo de NÃO ter ido. Isso não quer dizer que fui a todos aqueles que gostaria, mas que quase todos estes tiveram algum motivo forte que me impediu de estar presente. Em boa parte dos casos, eu não tinha grana. Em outros tantos, eram shows que queria ter ido com a Suzi e não era sempre que tínhamos babá disponível. Num dos casos mais lamentáveis, perdi o show do Leonard Cohen por causa de uma viagem. No entanto, não fui ao show da Catherine Ringer por pura falta de "agendamento". Tinha grana, poderia ter descolado uma babá, estava em Montreal. Quando, um dia depois do show, coloquei um disco de Les Rita Mitsouko para ouvir e li a crítica do show no jornal local, me bateu o tal do puta arrependimento. Faço então um post-homenagem para dividir a frustração, mas também a admiração.

Catherine Ringer nasceu na França em 1957, filha de artistas (pai pintor polonês, mãe arquiteta francesa). Algumas fontes indicam sangue azul na família materna. Nos anos 70, Catherine participa de espetáculos de teatro, dança e canto, juntando-se ao grupo de teatro de Michael Lonsdale. A partir de 1976, ela atua em diversos filmes de sexo explícito, usando pseudônimos como Lolita Da Nova e chocando vários colegas de profissão ditos mais sérios.

É a partir do encontro com Fred Chichin em 1979 que sua carreira iria dar uma outra virada. Eles fundam o grupo musical Les Rita Mitsouko em 1980 e, embora Catherine continuasse a fazer filmes pornô até 1981, a banda se tornaria cada vez mais sua atividade principal. É também em 1981 que um acontecimento pessoal dramático vai marcar Les Rita, o que nos obriga a um pequeno parêntese.

Nos anos 1970, Catherine Ringer estudou dança com a coreógrafa argentina Marcia Moretto, considerada um talento emergente na cena alternativa parisiense. Em 1981, um câncer fulminante mata Marcia aos 32 anos. Catherine e Fred compõem então a música "Marcia Baïla" em sua homenagem.

Em 1984 Les Rita Mitsouko lança seu primeiro disco, homônimo. O segundo single do disco é justamente "Marcia Baïla", que se tornará o primeiro grande sucesso da carreira do grupo, alcançando o número 2 de singles vendidos na França e projetando-os nacionalmente, sendo responsável pelo conhecimento do grupo nos EUA. A canção é uma pérola pop, com arranjo tipicamente oitentista e desvios harmônicos inesperados. Foi um sucesso das pistas de dança apesar do refrão é banhado em tintas depressivas pela morte da bailarina - é impressionante até hoje imaginar a multidão dançando ao som de versos como "Mas foi a morte que te assassinou, Marcia" ou "Foi o câncer que você pegou pelo braço". Misto de grito desesperado, reação catártica e declaração de amor, "Marcia Baïla" continua sendo até hoje um desses enigmas que de vez em quando toma de assalto a música pop. O fantástico clipe dirigido por Philippe Gautier somente ajudou a realçar as qualidades da canção - vejam por exemplo como Gautier sabe ressaltar em imagens algumas sacadas harmônicas. Destaque também para Catherine tentando dançar como se não soubesse fazê-lo, e para o manequim que seria copiado pela Madonna anos mais tarde:



E para aqueles que não conseguem abstrair o preconceito com a estética da década perdida, uma comovente performance clean do hit muitos anos depois:



Les Rita Mitsouko iriam ter disversos outros sucessos em sua carreira, embora quase todos restritos ao território francês. Entre eles, "Les Histoires d'a.", "Andy" e "C'est comme ça" - que foi destruída pelo Capital Inicial numa de suas versões tenebrosas de músicas alheias (as deles não precisam disso):



Uma boa introdução ao grupo é a compilação "Bestov", que contém todas as músicas citadas aqui e dá uma idéia da diversidade do grupo e da potência da voz de Catherine, que foi ficando cada vez melhor, às vezes próxima de uma Siouxie Sioux, às vezes mais chegada a experimentações parecidas com as que a Camille tentou no seu último disco.

Com um punhado de hits nos primeiros discos, Les Rita Mitsouko entrou logo para o cenário cultural privilegiado francês. Godard dedica uma boa parte do seu Signe ta droite para registrar o grupo na gravação de seu segundo disco, reciclando o procedimento do Sympathy for the devil - guardadas as devidas proporções. É interessante notar, no mesmo filme, a presença de outro ícone pop francês, Jane Birkin, em pequena participação. Mas Les Rita estão lá fazendo o que sabiam melhor: tocar e gravar.

É com o ex-marido de Birkin que Catherine Ringer vai protagonizar uma rápida polêmica televisionada. Dividindo uma emissão de entrevistas com um Serge Gainsbourg bêbado, Ringer recapitulava coolmente sua experiência nos filmes pornô, quando é cortada pelo cantor que a chinga de puta. Ela revida, de forma bem equilibrada, argumentando que não é exatamente a mesma coisa, e ele diz que o que ela fez é nojento. Ela diz que entende perfeitamente que os outros achem aquilo nojento, mas que tudo fazia parte da "aventura moderna". E como esses franceses são intelectuais até quando se chingam mutuamente, Gainsbourg discorda veementemente: "Não, a aventura moderna não é nojenta". Só então é que Ringer demonstra impaciência e começa a virar o jogo, questionando o ataque de moralismo de um compositor conhecido justamente pelos escândalos, pelo "mau cheiro" e por dar entrevistas bêbado desde alguns anos: "O engenheiro de som sofre porque não consegue entender nada do que você diz." O encontro de um gênio num triste momento decadente e uma nova estrela polêmica em ascenção, num momento em que seus filmes pornô foram relançados na cola do seu sucesso musical:




Os dois iriam fazer as pazes anos depois, e Ringer iria participar eventualmente de uma homenagem ao Gainsbarre, mas a mancha no currículo nunca deixaria de ser comentada, principalmente depois que a internet renovou a curiosidade pela antiga obra filmográfica da cantora. Apesar disso, Catherine e Fred sobreviveram longamente com Les Rita Mitsouko, lançando sete álbuns de estúdio, dois ao vivo, um de remixes e uma compilação, até que o grupo teve que cessar as atividades. Depois de meses lutando contra a doença, Fred Chichin morre de câncer em novembro de 2007.

A cantora resolve manter uma turnê já programada, mudando o título do espetáculo para "Catherine Ringer canta Les Rita Mitsouko", onde ela canta os maiores sucessos da banda ao lado de canções do último disco. Dia 27 de julho ela fez a última apresentação da turnê, em Montreal. A não ser que ela siga os passos de Jane Birkin, que já anunciou diversas vezes que nunca mais cantaria as músicas de Gainsbourg, deve ter sido a última vez que foi possível ver Catherine cantando ao vivo "Marcia Baïla", elevando ao cubo a triste ironia da canção pela recente morte do companheiro.



PS: para compensar o post choroso, em breve será publicada a lista dos 10 melhores shows que vi por aqui.



Escrito por Milton do Prado às 21h16
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Hoje


Hoje estréia o filme do Mojica. Um dos acontecimentos cinematográficos do ano, sem dúvida.

Sugiro a todos a leitura do texto do Inácio Araújo hoje na folha. Inspiradíssimo. Um trecho:

"É um baixo orçamento (embora B.O. possa bem significar, no caso, boletim de ocorrência, tais as carnificinas que o velho maldito apronta). O certo é que entre seus crimes não está o de desperdiçar dinheiro."

Eu só poderei ver em setembro. Mas VOCÊ tem que ver logo! Ah, o site do filme também tá ótimo.



Escrito por Milton do Prado às 12h06
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morte anunciada


Dia 27 de agosto estarei voltando a morar no Brasil. O Olho de Hochelaga, depois de ter cumprido razoavelmente sua função, vai deixar de existir. Não imediatamente: ainda continuarei postando algumas reminiscências de Montreal, enquanto outro blogue tratará dos assuntos mais cinematográficos. Nesses três anos e meio o Olho deixou de ser um diário de viagem para se concentrar em um blogue de cinema, embora muitas vezes ele tenha ficado abandonado. Partirei então para outro projeto exclusivo - ou quase - de cinema, enquanto este aqui retoma a cara misturada que tinha no início, até sumir completamente.

Sentirei falta, no entanto, da sonoridade do nome do blogue. Quem sabe não crio um blogue culinário chamado O Alho de Baixo Fogo? Ou um outro sobre as desventuras da vida de nome A Água no Olho Roxo? Ou quem sabe um sobre minhas lembranças nordestinas, batizado de Ôxe, de Olho Largo?

Enquanto medito sobre essas questões de suma importância, vou postando aqui quando der.


Escrito por Milton do Prado às 18h53
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conversas cruzadas


No meio de todo oba-oba/fogo-cruzado a respeito do último Batman, o qual não tenho a menor vontade de ver, andei fazendo algumas analogias sobre quatro filmes que estavam no festival de Munique e que apresentam diferentes maneiras, dois a dois, de resolver alguns problemas a que se propõem tratar. Ou seja, para combater um assunto "da hora", nada melhor do que alguns assuntos "velhos".

Então vejamos: Redacted passava somente agora em Munique, o que é um atraso considerável e o que mostra a dificuldade de De Palma em vender o filme onde quer que seja. Não revi, mas fui conferir Stop-Loss, de Kimberly Peirce, cujo Boys Don't Cry me parece bem simpático e cujos temas são bastante semelhantes aos de Redacted: guerra do Iraque, a possibilidade de expressão vinda dos tais vídeos-diários etc. E é só. De Palma não somente cruza sua indignação política com mais uma reflexão sobre a imagem; ele faz da reflexão sobre a imagem sua indignação política, articulando diversos tipos de material e extrapolando a questão real/falso (as imagens reencenadas seriam mais falsas que as imagens reais da Fox, por exemplo?). Peirce usa o vídeo para criar uma empatia com um público MTV - que de resto parece nem mais existir - e daí criar uma ficçãozinha de denúncia das mais mal encenadas que vi recentemente. De longe o pior filme que vi no festival, mas o que mais impressiona aqui é o fosso que separa os dois filmes.

Havia outra dupla de filmes que também apresentavam semelhanças temáticas e que me interessou bastante. Youth Without Youth, do Coppola, também passava em Munique muito tempo depois de sua estréia nos EUA, também enfrentou problemas de distribuição, também era uma proposta mais low budget de seu diretor, como Redacted foi para De Palma. Só que, como já expressei aqui outra vez, enquanto De Palma apenas redimensiona seu cinema para novas formas (essa é uma questão longa; talvez na verdade ele pratique as mesmas formas com outros temas), Coppola faz desse novo rumo sua nova profissão de fé, quase um golpe publicitário adaptado aos novos tempos. Não digo que não há nada do Coppola antigo no filme - claro que há, mas tudo fica preso por um certo deslumbramento pela pseudo-profundidade esotérica da trama; e nesse sentido o digital para Coppola não serve somente para baixar os custos, mas para colocar uma flor na mão do defunto, no supra-sumo do kitch metido a chic. Daí, no festival, vou conferir Caótica Ana, último longa do ótimo Julio Medem, e me dou conta que ele tem muito em comum com o filme do Coppola. Não somente está presente a mulher que revive suas antigas vidas, indo até sua origem mais primordial, como há claramente um desconforto causado pelo esoterismo explícito. Assim como em Youth Without Youth, a trama é apresentada desajeitadamente, os diálogos são quase ridículos no seu didatismo, os atores não parecem à vontade - nem a câmera parece muitas vezes saber o que fazer, atirando para vários lados e apelando para vários "efeitos". Há no entanto uma diferença fundamental: esse esoterismo não estava tão longe assim da obra de Medem, e seus ecos podem ser sentidos em Esquilo Vermelho, Terra, Amantes do Círculo Polar e Lúcia e o Sexo. Ou seja, há uma verdadeira crença holística por parte do diretor, que muitas vezes soube transformá-la numa poética bastante peculiar. O problema maior no novo filme é que, inspirando-se numa tragédia pessoal (a irmã de Medem, artista plástica, morreu num acidente a caminho de uma vernissagem), parece não haver a distância para administrar tanta viagem - e aqui viagem em qualquer sentido, da Espanha a New York, das exposições de arte às cavernas, do poético ao claramente ridículo. O fosso que separa Youth Without Youth e Caótica Ana não é muito grande; ambos são, cada uma a sua maneira, fracassos na obra dos respectivos diretores. A grande vantagem de Medem é que ele não tem medo do ridículo, além de saber como poucos filmar o corpo de uma mulher.

Redacted (2007), de Brian De Palma
Stop-Loss (2007), de Kimberly Peirce
Youth Without Youth (2007), de Francis Ford Coppola
Caótica Ana (2007), de Julio Medem

Escrito por Milton do Prado às 13h08
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Salamandra


Essa estréia de Pablo Agüero foi provavelmente o melhor filme que vi no Festival de Munique. Esqueçam Machuca, O Ano em Que Meus Pais... e outros filmes em que o protagonista infantil enfrenta as agruras de viver sob uma ditadura latinoamericana. Salamandra vai fundo na história de uma mãe que foge com o filho para El Bolson, na Patagônia, uma região que abriga todo tipo de fugitivo: políticos, hippies, ladrões (Butch Cassidy foi pra lá) etc. Lá eles vão viver em dois ambientes diferentes, cada vez enfrentando situações mais difíceis. Mas o que marca no filme de Agüero é sua capacidade para trabalhar o onírico de uma situação tão dura, mostrando um ponto de vista infantil poucas vezes visto - no sentido de captar a visão infantil de todo o caos da situação, sem apelar para procedimentos como voice over ou clichês do gênero. Há algo de Lucrecia Martel em alguns enquadramentos, mas o clima que o filme constrói é bastante pessoal e, apesar de toda dureza, ou mesmo por causa dela, bastante poético. A última cena é de uma tristeza profunda. Mesmo com algumas cenas desajeitadas, é um belíssimo filme de estréia.


Como "bônus", o filme ainda conta com uma participação mais que especial:




Escrito por Milton do Prado às 14h47
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Escrito por Milton do Prado às 12h04
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Ferrara em Munique


Uma das coisas mais legais que vi em Munique foi a entrevista coletiva com Abel Ferrara. O filme novo, Chelsea on the Rocks, eu perdi: não tava lá na primeira sessão e na segunda me arranjaram um encontro com realizadores latino-americanos - tipo da coisa que não traz muitos resultados, mas que não dava pra deixar de ir. Enfim, estava em Munique representando o Ainda Orangotangos, filme da Clube Silêncio, então via filmes quando dava. E numa dessas oportunidades truvisquei a entrevista com o cara.

Estavam lá ele, um produtor, uma atriz e um ator do filme. Ferrara me pareceu bastante envelhecido fisicamente, mas tem uma energia fantástica, desvia os assuntos, é engraçado. Alguns dos melhores momentos da entrevista (destaque para o que ele fala sobre montagem, uma obviedade que vários cineastas novos insistem em não ver):

- SID VICIOUS: A coisa que mais lamento nesse último filme foi não ter podido usar algumas imagens de Sid e Nancy no quarto do Chelsea Hotel. Os donos dessa imagem pediram um valor absurdo! Essa gente acha que os anos 70 vão despertar o mesmo interesse para sempre, pensam que o tempo não passa. Daqui a pouco ninguém quer saber dos anos 70 e eles acabaram não mostrando essas imagens quando deveriam. E se vocês as vissem, vocês iriam entender por que eu acho que esse menino não matou a Nancy.

- FILMAGEM EM DIGITAL/MONTAGEM: Claro que filmar em digital facilita muito as coisas, principalmente para documentários. Mas eu acho muito engraçado quando leio a quantidade de bobagens escritas a respeito. Ok, filmei 4 vezes mais material do que se eu estivesse fazendo em película, mas em algum momento alguém vai ter que ver esse material, vai ter que selecionar, e em documentário isso significa um assistente a mais de montagem, ou mais tempo pro montador... Você pode até filmar mais rápido, mas você não monta mais rápido. Você tem que deixar o filme montar, você tem que se dar o direito de errar, voltar atrás, experimentar, e para isso você precisa de tempo. Se não, não estamos falando de montagem.

- SOBRE IMPROVISAÇÃO: muita gente associa improvisação com amadorismo, como o oposto do profissionalismo. Para mim é o contrário. A gente não sai improvisando do nada, a gente tem um roteiro, os atores conversam comigo e a gente começa a ensaiar - e nesses ensaios os atores vão acrescentando, a coisa vai mudando, e é aí que nasce o filme. É isso que mais detesto em Hollywood, os atores nunca conseguem explorar o que podem, porque não conseguem ensaiar para oferecer algo realmente digno do trabalho deles. Então o que a gente vê em 99% dos filmes hollywoodianos é apenas o primeiro ou segundo ensaio daquilo que eu costumo trabalhar.

- REMAKE DE BAD LIEUTENANT: Ok, de novo esse papo. Eu realmente tô puto com essa história, por um motivo simples: nós fizemos esse filme com suor e sangue, daí vem esse garoto chamado Nicolas Cage e diz que vai refilmar. Cá pra nós, vocês conhecem idéia mais idiota? E esse diretor, Herzog, quem é ese cara? De onde ele é aqui na Alemanha? (nesse momento o tradutor informa que Herzog nasceu em Munique) Ele nasceu aqui? Oh fuck (dá uma gargalhada). Vocês me desculpem, na real acho que ele está entrando de idiota na história, e que o filho da puta é mesmo Nicolas Cage, que não tem um quinto do talento nem um décimo da personalidade do Harvey Keitel. Perguntem a vários atores, perguntem a Willian Dafoe o que ele acha do Cage... eu ia trabalhar uma vez com ele e todos me parabenizam por não ter dado certo. Ele nunca vai ficar nem ficar na sombra de Keitel, ou de Klaus Kinski, por exemplo.

- PRÓXIMOS PROJETOS: Quero fazer um prequel do King of New York, mas já mudei o roteiro várias vezes. É um filme mais sobre Nova Iorque dos anos 70 do que qualquer outra coisa. Mas antes eu provavelmente vá fazer um western. Ou um anti-western, sei lá. (obs: no imdb o prequel de King of New York, Pericle il Nero, consta como seu próximo projeto, em pré-produção).


Escrito por Milton do Prado às 17h39
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